Interação social

Seja online, mediada ou face-a-face, as interações sociais consistem em trocas de vivência dentro das relações humanas. Tema central aos estudos sobre socialização e aprendizagem de Piaget e Vygotski.

As interações sociais consistem em trocas de ações, ideias e experiências dentro de uma relação com uma ou mais pessoas. São dinâmicas de comunicação que acontecem, portanto, de formas variadas e em diferentes espaços, podendo ser recíprocas ou unilaterais. Com isso, este tema passa a ser discutido com centralidade entre os que estudam processos de socialização e aprendizagem.

Interação social e socialização

Com auxílio de Peter Berger (1977), pode-se dizer que o ser humano desde bebê passa por constantes interações e será, dessa forma, por meio da relação com o meio externo e seus cuidadores que a criança aprenderá a compreender e identificar os signos da determinada comunidade onde vive. Por exemplo: linguagem verbal, não verbal, comportamentos em certos espaços, distinção de corpos e pessoas etc. Desse modo, refere-se à construção de uma ideia de convivência baseada nas regras sociais de sua sociedade. Todavia, é importante entender que não se trata, neste sentido, de uma vítima passiva, pois este processo tem caráter recíproco. Não afeta apenas o sujeito socializado, mas também os socializantes.

Dado isso, vale ressaltar que enxergar a criança diferente de uma caixa vazia faz parte de contribuições importantes da psicologia que foram utilizadas pela sociologia com a finalidade de se contrapor, então, às teorias sociológicas em que o comportamento humano era visto como algo estruturado por estruturas coercitivas e determinantes. No entanto, ainda que se tenham divergências teóricas bem marcadas, pode-se indicar que para os sociólogos, as interações sociais são fundamentais, já que é possível identificar fenômenos sociais que lhe são caros por meio delas.

Modos de interação social

Como mencionado, existem várias formas de interações sociais, podendo ser interpretadas e utilizadas de diversas formas. Estas variam, portanto, em cada sujeito, a partir de seu quadro social e de suas vivências (WILLIAMS, 2016). Assim, seguindo as ideias propostas por John B. Thompson (2018), existem quatro tipos de interações, sendo elas:

  • Interação face-a-face: nesta, os sujeitos se relacionam presencialmente e refere-se a uma relação entre duas ou mais pessoas. Exemplo: a sala de aula é um exemplo claro, pois os alunos podem interagir entre eles e também com o professor.
  • Interação mediada: trata-se de uma interação não presencial em que há um objeto como mediador entre as interações humanas. Exemplo: ligação mediada por telefone.
  • Quase-interação mediada: esta refere-se a uma relação unilateral. Somente um lado, com uma ou mais pessoas, transmite mensagens a partir de algum objeto. Exemplo: neste sentido, esta interação acontece frequentemente com quem assiste algum programa mediado pela televisão ou lê algo mediado por um livro.
  • Interação mediada on-line: por fim, esta última se trata, então, de uma interação digital de “todos com todos” ou entre duas ou mais pessoas. Exemplo: de um lado, o feed de publicações nas redes sociais e a possibilidade de interação com as publicações de diversas pessoas, juntamente de outras simultaneamente. De outro, diálogos entre duas ou mais pessoas por aplicativos.

É necessário destacar, pois, os reflexos das distinções e hierarquizações dentro das interações entre grupos sociais. Segundo Howard Becker (2008), são vistos como outsiders aqueles que apresentam comportamentos desviantes e questionadores em relação às normas de seu grupo/sociedade. O medo de questionar essas regras, neste sentido, é uma tentativa de controle em que aqueles que estão em posições privilegiadas punem os sujeitos que os questionam.

Teorias interacionistas

A relevância deste tema faz com que seja, dessa maneira, amplamente analisado pelas ciências. Desta forma, dentre os vários pensadores estão Jean Piaget (construtivista) e Lev Vygotski (interacionista) que trouxeram percepções importantes sobre o processo de aprendizagem. Desenvolveram suas teorias a partir de questões diferentes, embora ambos considerem a criança como um ser ativo, capaz de criar e alterar.

Jean Piaget propõe uma teoria do conhecimento a fim de entender como os sujeitos passam de um estado de menor a maior nível de conhecimento, independente da intervenção social. Vygotski, em contrapartida, com influências do materialismo histórico-social, propõe que “não há uma linha do desenvolvimento cognoscitivo, mas caminhos que dependem dos contextos culturais” (CASTORINA, 1998, p. 162).

Além dos que já foram mencionados, dá-se destaque no âmbito da sociologia, portanto, à Escola de Chicago, pelo foco temático em interações sociais, possuindo, deste modo, vasto estudo sobre o interacionismo simbólico a salientar a casualidade da vida social e a importância das negociações individuais (BECKER, 1996).

Vídeos sobre interações sociais nas perspectivas da Sociologia e Psicologia

Com base no que foi apresentado, seguem vídeos que comentam e agregam acerca da temática abordada que podem contribuir com o aprofundamento e consolidação acerca do que foi visualizado.

Sociologia – Interação social (1º EM) (by Prof. Henrique Martins)

Neste vídeo, o Professor Henrique Martins explica o que são as interações sociais e como se dão, relacionando também aos conceitos de redes sociais (não digitais), sociedade e comunidade.

Processo de socialização: Mecanismos e Níveis de Socialização (by Sociologia com Gabi)

Ao pensar em socialização, a Gabi apresenta basicamente as fases deste processo que pressupõe interações sociais desde a infância até a velhice, a partir do autor Peter Berger.

Piaget e Vygotsky (Draw My Class)

De maneira didática, o conteúdo apresentado pelo Draw My Class, literalmente ilustra explicações que descomplicam as teorias de Jean Piaget e Vygotski.

Por fim, apesar da complexidade presente na discussão sobre as interações sociais, elas são fenômenos demasiadamente corriqueiros e presentes nas vidas humanas. Com isso, demonstram que nem sempre nós, humanos, estamos conscientes acerca de nossas ações marcadas por regras, aspectos culturais, desigualdades, dentre outros fatores respectivos a cada grupo social ou comunidade. Afinal, nossos dias são constantemente marcados por essas interações sobre as quais raramente pensamos. Para aprimorar seus estudos, confira acerca da socialização, conceito que propõe uma descrição do processo de se tornar um sujeito na sociedade.

Referências

BECKER, H. S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

BECKER, H. Conferência: Escola de Chicago. MANA2(2):177-188,1996.

CASTORINA, J. A. Piaget e Vigotsky: Novos argumentos para uma controvérsia. Universidade de Buenos Aires, trad.: Neide Luzia de Rezende. Cad. Pesq. n. 105, p. 160-183, nov. 1998.

FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. de S. Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. in: Socialização: como ser um membro da sociedade, cap. 13, 1977.

THOMPSON, J. B. A interação mediada na era digital. University of Cambridge, Department of Sociology Cambridge. Cambridge: Richard Romancini, 2018.

WILLIAMS, R. Televisão: tecnologia e forma cultural. Trad. Márcio Serelle; Mário F. I. Viggiano. 1a ed. Belo Horizonte: Boitempo, PUCMinas, 2016.

Jessica Cafisso
Por Jessica Cafisso

Cientista Social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da Sociologia da Comunicação.

Como referenciar este conteúdo

Cafisso, Jessica. Interação social. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/sociologia/interacao-social. Acesso em: 29 de October de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UEM]

Sobre a relação entre indivíduo e sociedade e o processo de socialização, é correto afirmar que:

01) o processo de interação social é basicamente uma forma de troca de atenção, de recursos e de experiências entre as pessoas envolvidas em uma relação.
02) as pessoas nem sempre agem racionalmente. Na maioria das vezes, elas orientam suas ações com base em normas sociais das quais nem sempre são conscientes, mas que aprenderam nos processos de socialização.
04) a socialização é um processo essencialmente de reprodução de padrões sociais, no qual existe pouco espaço para a criação, a invenção e a reflexão.
08) a análise sociológica interacionista destaca as dimensões ritualizadas e dramatúrgicas da vida social. Dessa análise resulta a concepção de vários(as) sociólogos(as) dessa vertente em considerar a sociedade um palco em que as pessoas desempenham papéis reconhecidos coletivamente.
16) a comunicação pode ser vista como uma forma de interação social, uma vez que estabelece, entre as pessoas envolvidas, um conjunto de significados compartilhados.

01 – 02 – 16

Como apresentado, o processo de interação social é uma troca de atenção, ou seja, uma tentativa de comunicar algo, que nem sempre se dá de forma consciente.

2. [UEM]

Minha Alma (a paz que eu não quero).

“A minha alma está armada e apontada
Para a cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
[…] As grades do condomínio
São para trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que está nessa prisão”
Compositor: Marcelo Yuka, intérprete: O Rappa, álbum: Lado B Lado A, 1999.

A composição remete a questões importantes da Sociologia, dentre elas o controle social. Acerca do controle social, assinale o que for correto.

01) O controle social é composto pelos mecanismos que delimitam as ações e as interações sociais.
02) A violência psicológica e o constrangimento público são formas de controle social fundamentadas no medo.
04) O controle social pode influenciar as pessoas a adotarem determinados comportamentos.
08) Os mecanismos de controle social se resumem a aqueles expressos por regras legais.
16) O controle social pode inibir as pessoas de manifestar sua opinião, criando uma paz aparente que dissimula a existência do medo; medo, por exemplo, de punição.

01 – 02 – 04 – 16

Diante do conteúdo apresentado, é possível perceber que o processo de socialização, como meio de adentrar às normas de determinada sociedade, é marcado por regras que podem tomar forma de controle social, em que pessoas afetadas negativamente por essas regras sentem medo, por exemplo, de infringi-las ou questioná-las por conta das ameaças punitivas.

3. [UEL]

Nas sociedades contemporâneas, ocorrem expansões do desenvolvimento e do uso de substâncias químicas com a finalidade de interferir nas sensações, nas percepções e nos comportamentos dos indivíduos. Partes dessas substâncias são consideradas lícitas e outras ilícitas, a depender dos valores hegemônicos de uma dada sociedade. O consumo dessas substâncias lícitas e ilícitas constitui prática cotidiana e mobiliza uma diversidade de julgamentos de valor. As preocupações com o consumo das drogas ilícitas encontram respostas em determinados tipos de políticas de repressão por parte do Estado. Com base nos conhecimentos sobre as políticas de segurança e de repressão e suas relações com os temas do poder, da dominação e do controle, assinale a alternativa correta.

a) As perguntas sobre por que as pessoas violam as normas, como, por exemplo, comprar e consumir drogas ilícitas, a reiteração de vícios e como fazer para que as pessoas abandonem práticas delituosas são típicas dos estudos do interacionismo simbólico.

b)
Os estudos de Loïc Wacquant demonstram a tendência de ampliação dos direitos e benefícios sociais, com consequente redução do chamado capitalismo de pilhagem de abrangência internacional e diminuição do denominado Estado penal.
c) Políticas, como as de choque de ordem e da tolerância zero, têm resultados positivos em termos de respeito e de reconhecimento dos direitos humanos das populações pobres e residentes de áreas de vulnerabilidade social.

d) De acordo com Howard Becker, todos os grupos sociais fazem regras e tentam impô-las, mas o rotulado como desviante pode ter uma opinião diferente sobre a questão, assim como aquele que infringe a regra pode pensar que quem o julga é que é um outsider.

e) Os estudos positivistas preocupam-se com questões como quem define as regras sobre que tipos de atividades são considerados normais e que tipos são considerados desviantes ou ilícitos e de que forma os agentes definem tais regras.

D

Howard Becker (2008), a partir de uma abordagem teórico-metodológica interacionista, analisa a interação entre os que possuem poder de fundar regras sociais e aqueles que são alvo delas. Com isso, o autor entende que existem os estabelecidos, que agem de acordo com as regras e os outsiders, que apresentam desvios comportamentais em relação a elas. Nesse sentido, essas condições podem variar a depender do posicionamento social daquele que julga o desvio.

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