Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente é considerado o fundador do teatro português. O Auto da Barca do Inferno é sua principal obra.

Gil Vicente é considerado o fundador do teatro português e uma de suas peças mais conhecidas é o Auto da Barca do Inferno, primeira parte da Trilogia das Barcas. Neste texto, você conhecerá mais sobre essa famosa peça vicentina, além da vida do autor e contexto de produção da obra.

Personagens

  • Anjo: comanda a barca do céu;
  • Diabo: comanda a barca do inferno;
  • Companheiro do Diabo: acompanha o Diabo na barca;
  • Fidalgo: representação da nobreza;
  • Onzeneiro: agiota, representação da avareza;
  • Joane, o Parvo: representação do ser sem malícia;
  • Frade: representação de integrantes da Igreja que não se comportam conforme a doutrina que pregam;
  • Florença: acompanhante do Frade;
  • Brízida Vaz, Alcoviteira: representação da falta de moralidade relacionada à sexualidade;
  • Judeu: personagem que é recusado tanto pelo Anjo quanto pelo Diabo, mas é carregado em um reboque pelo último. É importante salientar que, na época da peça, os judeus eram perseguidos pela corte e chegaram a ser expulsos de Portugal por Dom Manuel I;
  • Corregedor e Procurador: referência ao abuso de poder por parte de pessoas de influência;
  • Enforcado: personagem que acreditou que sua morte indigna o livraria dos pecados cometidos;
  • Quatro Cavalheiros: personagens glorificados pelo sacrifício que fizeram a Cristo;

Resumo da obra

A peça Auto da Barca do Inferno começa no momento em que um Fidalgo tenta entrar na barca do céu, mas o Anjo não permite e salienta que ele não tratara bem os pobres em vida. O Diabo, comandante da barca do inferno, aceita sua entrada, mas sem a luxuosa cadeira que carregava. Posteriormente, um agiota também tenta embarcar na arca que iria ao céu e recebe a recusa do Anjo, não havia espaço suficiente para toda a ambição do homem.

O próximo sujeito era de pouca inteligência, um Parvo. Devido à ausência de malícia em sua personalidade, o Anjo permite sua entrada. Em seguida, um Sapateiro embarca na barca do inferno, uma vez que não havia espaço na barca do céu para suas ferramentas de trabalho, instrumentos que utilizara para enganar seus clientes enquanto vivo.

Um Frade chega acompanhado de uma moça e o Parvo comenta sobre a união imoral do casal. Assim, ao reconhecer sua posição pecaminosa, o Frade embarca na barca do inferno. A próxima a chegar é uma Alcoviteira, que, ao importunar o Anjo, é encaminhada à barca do inferno por conta de seus atos terrenos. Da mesma forma, um judeu e dois burocratas que praticaram pecados utilizando seus poderes de influência.

Desfecho

O último a embarcar na barca do inferno foi um homem enforcado que acreditara ser uma forma santa de morrer. No fim, porém, não havia levado uma vida santa e acompanha o Diabo. A peça se encerra quando chegam os Quatro Cavalheiros os quais embarcam juntos ao Anjo, orgulhosos por morrerem em nome de Cristo na guerra contra os mouros.

Análise da obra e contexto histórico

  • Narrador: no início de cada cena há uma breve contextualização realizada em terceira pessoa.
  • Espaço: um rio onde dois barcos estão em uma espécie de cais, em um local mítico.
  • Tempo: o tempo é apenas mítico, não é possível defini-lo precisamente.
  • Foco narrativo: recai sobre a chegada de cada personagem e sua ida à barca do céu ou à barca do inferno.
  • Fatores externos: reinado de D. Manuel I, Humanismo, Grandes Navegações.

Contexto de produção

Gil Vicente viveu durante a passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Nesse período, surgiu a corrente cultural denominada Humanismo a qual representou a quebra dos valores teocêntricos e alicerçou o antropocentrismo nas artes. Foi o movimento que preparou terreno para o que conhecemos como Renascentismo.

As ideias humanistas começaram a influenciar a literatura portuguesa por volta de 1434. O teatro vicentino desenvolveu-se em um período de grandes mudanças sociais e econômicas em Portugal e na Europa. As viagens à costa africana, às Índias e à América mudaram o cenário internacional, quebrando os paradigmas da sociedade medieval. Assim, Gil Vicente olhava para sociedade, via seus vícios, utilizava os tipos sociais para realizar críticas e não perdoava nenhuma classe, mas não focava em nenhuma instituição representada por esses sujeitos.

O mais interessante do poeta dramático é a dualidade. É considerado o maior nome do Humanismo português; mas, ao mesmo tempo, ao olhar para decadência da sociedade, via a estrutura medieval como estável. Gil Vicente, por isso, constrói um teatro vivo no confronto entre a Idade Média e a Renascença, tornando sua produção densa em temáticas.

Análise da obra

O Auto da Barca do Inferno foi encenado em 1517 e é a primeira parte de uma trilogia. Gil Vicente utiliza personagens míticos, o Anjo e o Diabo, e tipos sociais para tecer uma crítica aos desvios comumente observados na sociedade do século XVI. Desde o Frade, que deveria ser o exemplo a seguir os princípios religiosos, a um Sapateiro, todos os sujeitos são desnudados por suas hipocrisias na vida terrena.

No comando de cada uma das barcas, do céu e do inferno, o Anjo e o Diabo são figuras alegóricas que recebem as almas. O julgamento de caráter se dá de forma satírica, principalmente pelo Diabo, e apenas duas personagens embarcam na barca do céu: o Parvo, devido à sua humildade e ausência de malícia, e os Quatro Cavalheiros que morreram defendendo a península ibérica dos mouros em nome de Cristo. Como se pode notar, a maior parte dos sujeitos apresentados vão ao inferno. O mais interessante, porém, é o fato de todos sempre se encaminharem diretamente para a barca do céu e se considerarem dignos da salvação.

Entre as personagens, o Judeu é a única com um tratamento diferente. Gil Vicente era contra o tratamento violento dado a essa população pelo monarca D. Manuel I, por isso a personagem encontra-se sem um destino pleno na peça, ou seja, fora do campo de julgamento cristão.

Esse cenário, moldado a partir de laços explicitamente religiosos, configura-se como um auto de moralidade, ao apontar os desvios cometidos por diferentes classes sociais. A usura, o abuso de autoridade e a falsa moralidade são alguns dos assuntos tratados pelo dramaturgo português com uma ampla dose de sátira e humor.

Entenda mais sobre a obra

Como vimos ao longo do texto, a peça Auto da Barca do Inferno possui diversas características que a tornam crítica e sutilmente cômica. Os três vídeos abaixo auxiliarão você a compreender melhor essa rica obra vicentina.

Resumo de Auto da Barca do Inferno

Compreender o enredo de uma obra é sempre importante, ainda mais quando há várias personagens relacionando-se. Neste vídeo, você poderá acompanhar um resumo e uma breve análise.

O que foi o Humanismo?

Gil Vicente é considerado pela crítica literária como pertencente ao Humanismo e foi um dos principais autores do período na Europa. Por isso, é importante compreender as características desse movimento para poder observá-las na obra vicentina.

A obra de Gil Vicente

Este vídeo aborda a relação entre o Humanismo e a obra de Gil Vicente, apresentando diversos exemplos para compreender a obra do autor, considerado um dos principais nomes do teatro português.

Com esses vídeos, você conseguirá se aprofundar mais no conteúdo e estará mais preparado para responder questões sobre Gil Vicente. Lembre-se, porém, que nada substitui o contato direto com a obra. Nesse caso, a peça Auto da Barca do Inferno já está disponível em domínio público. Para lê-la, clique aqui.

Sobre o autor

Autor de Auto da Barca do Inferno
Gravura de Gil Vicente, representação da estátua de Francis de Assis Rodrigues, localizada no Teatro Nacional D. Maria II. Imagem em domínio público.

Apesar de amplamente conhecido como um dos maiores dramaturgos da cultura portuguesa, a vida de Gil Vicente possui várias incógnitas. Ele nasceu por volta de 1465 e começou sua carreira de sucesso em 1502, quando apresentou à corte de D. Maria a peça Auto da Visitação. Foi nomeado pelo rei D. Manuel I como seu mestre de cerimônias. Sua influência na corte portuguesa era tamanha que chegou a criticar frades pela explicação relacionada à esfera divina do terremoto de 1531 e mandou uma carta ao rei condenando a perseguição aos judeus.

Gil Vicente é considerado o fundador do teatro português e um dos grandes nomes do Humanismo europeu. Além de teatrólogo, trabalhou como mestre na Casa da Moeda. Teve cinco filhos de seus dois casamentos. Escreveu cerca de 50 obras, entre autos e farsas. Faleceu provavelmente em 1537.

O teatro vicentino

O teatro de Gil Vicente aborda diversas temáticas e sofreu influências diretas dos gêneros típicos do teatro medieval. O autor tinha um olhar atento ao contexto português do século XVI e suas obras sempre possuíam críticas ácidas aliadas a um humor sutilmente empregado. As personagens mais comuns de Gil Vicente são os tipos sociais, as personificações alegóricas, as personagens míticas/bíblicas e as figuras teológicas. Em linhas gerais, sua obra pode ser dividida em autos pastoris, autos de moralidade, farsas, autos cavaleirescos e autos alegóricos de temas profanos.

Adaptações

Encenada originalmente para a corte portuguesa em 1517, a peça Auto da Barca do Inferno percorreu séculos e ainda está presente na atualidade, seja em versões adaptadas em termos de linguagem, seja para outras mídias, como os quadrinhos.

Auto da Barca do Inferno em quadrinhos

Quadrinhos Auto da Barca do Inferno
Quadrinhos de Laudo Ferreira e Omar Viñole na adaptação de Auto da Barca do Inferno. Fonte: Editora Peirópolis.

Os quadrinistas Laudo Ferreira e Omar Viñole recriam os tipos sociais de Gil Vicente. Publicado em 2011, a versão em quadrinhos de Auto da Barca do Inferno traz a ainda relevante crítica da obra vicentina, mas com uma roupagem moderna por meio de quadros coloridos e traços excêntricos.

Também é comum encontrar adaptações da peça por companhias de teatro. Ademais, frequentemente alunos do ensino médio encenam a famosa peça nas aulas de língua portuguesa.

7 frases de Auto da Barca do Inferno

A leitura da peça pode ser particularmente desafiadora, devido ao português do século XVI. Há, porém, edições já atualizadas que procuram manter a estética original, principalmente em relação ao uso da redondilha maior. Veja alguns trechos da obra de Gil Vicente, de acordo com a versão de 1518.

  • DIABO: À barca, à barca, houlá! / que temos gentil maré! / – Ora venha o caro à ré!
  • FIDALGO: Esta barca onde vai ora, / que assi está apercebida?
    DIABO: Vai para a ilha perdida / e há-de partir logo ess’ora.
  • ONZENEIRO: Pera onde caminhais?
    DIABO: Oh! Que má-hora venhais, / onzeneiro, meu parente!
  • DIABO: De que morreste?
    JOANE: De quê? / Samicas de caganeira.
  • SAPATEIRO: Hou da barca!
    DIABO: Quem vem i? / Santo sapateiro honrado! / Como vens tão carregado?
  • DIABO: Que cousa tão preciosa! / Entrai, padre reverendo!
    FRADE: Para onde levais gente?
    DIABO: Pera aquele fogo ardente / que nom temestes vivendo.
  • DIABO: Entrai cá! Que cousa é essa? / Eu nom posso entender isto!
    CAVALEIROS: Quem morre por Jesu Cristo / não vai em tal barca como essa!

Essa é uma das principais obras de Gil Vicente e várias das críticas feitas pelo autor ainda estão presentes na atualidade. É uma peça de teatro satírica e bem humorada e os tipos sociais representados conseguem mostrar um amplo contexto do século XVI.

Referências

A literatura portuguesa – Massaud Moisés;
Análise de obras literárias: Auto da Barca do Inferno – COC: Sistema de Ensino;
Auto da Barca do Inferno (introdução, preparação do texto e notas por Francisco Achcar) – Gil Vicente;
Humanismo – José Carlos Siqueira;
O humor em Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente – Caline Fonseca de Andrade.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [FUVEST]

Indique a afirmação correta sobre o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente:

a) É intricada a estruturação de suas cenas, que surpreendem o público com a inesperado de cada situação.
b) O moralismo vicentino localiza os vícios, não nas instituições, mas nos indivíduos que as fazem viciosas.
c) É complexa a crítica aos costumes da época, já que o autor primeiro a relativizar a distinção entre Bem e o Mal.
d) A ênfase desta sátira recai sobre as personagens populares mais ridicularizadas e as mais severamente punidas.
e) A sátira é aqui demolidora e indiscriminada, não fazendo referência a qualquer exemplo de valor positivo.

Correta: b.
Justificativa: Gil Vicente performava suas peças para a corte portuguesa do século XVI. Por isso, suas críticas eram focadas nos sujeitos das ações, mas não nas instituições que eles representavam. Em relação às incorretas: a) as cenas seguem a ordem da chegada das personagens, não há surpresas nesse quesito; c) Gil Vicente não relativiza o Mal e o Bem, ele expõe explicitamente os costumes e a própria entrada nas barcas representa o que é enaltecido e o que não é; d) a sátira recai sobre todos as personagens, com cenas dedicadas a cada uma delas; e) existem valores positivos enaltecidos, como os Quatro Cavaleiros.

2. [FUVEST]

Diabo, Companheiro do Diabo, Anjo, Fidalgo, Onzeneiro, Parvo, Sapateiro, Frade, Florença, Brígida Vaz, Judeu, Corregedor, Procurador, Enforcado e Quatro Cavaleiros são personagens do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Analise as informações abaixo e selecione a alternativa incorreta cujas características não descrevam adequadamente a personagem.

a) O Onzeneiro idolatra o dinheiro, é agiota e usurário; de tudo que juntara, nada leva para a morte, ou melhor, leva a bolsa vazia.
b) O Frade representa o clero decadente e é subjugado por suas fraquezas: mulher e esporte; leva a amante e as armas de esgrima.
c) O Diabo, capitão da barca do inferno, é quem apressa o embarque dos condenados; é dissimulado e irônico.
d) O Anjo, capitão da barca do céu, é quem elogia a morte pela fé; é austero e inflexível.
e) O Corregedor representa a justiça e luta pela aplicação integra e exata das leis; leva papéis e processos.

Correta: e.
Justificativa: A única opção que não expõe a representação correta de uma personagem é a letra e, pois o corregedor, assim como o procurador, utilizava-se equivocadamente de seu poder de influência.

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