Relativismo cultural

Visando combater o pensamento etnocêntrico, o relativismo cultural surgiu como um conceito antropológico que mostra a diversidade cultural existente no mundo.

O relativismo cultural é um dos conceitos mais importantes da antropologia. Essa ideia surgiu como uma forma de substituir a corrente evolucionista que pregava uma hierarquia entre as culturas – ou seja, dividia as sociedades entre “primitivas” e “avançadas” – onde as culturas europeias estariam no topo e as indígenas eram consideradas inferiores.

Quando os antropólogos começaram a pesquisar essas sociedades antes ditas “primitivas”, perceberam que suas culturas eram tão ricas quanto quaisquer outras, não sendo possível lhe fazer juízo de valor. Assim surgiu o conceito de relativismo cultural, atestando que cada cultura possui a sua particularidade, complexidade e riqueza social.

Relativismo cultural: definição

Tirinha de Carlos Ruas sobre relativismo cultural e etnocentrismo. (umsabadoqualquer.com).
Tirinha de Carlos Ruas sobre relativismo cultural e etnocentrismo.

Relativismo cultural significa que cada cultura é relativa a si mesma. Não é possível, por exemplo, ser europeu e julgar a cultura brasileira a partir de seus próprios valores. Não existe um critério absoluto e universal para organizar, analisar ou mesmo julgar as diferentes culturas que existem ao redor do mundo. Portanto, cada cultura possui sua lógica própria e costumes que fazem sentido apenas dentro de seu grupo.

A ideia surgiu com Franz Boas, antropólogo que combatia a vertente evolucionista que defendia que as culturas podiam ser organizadas hierarquicamente. Além disso, Boas também criticava o nazismo e o arianismo, mostrando que os seres humanos não são apenas determinados biologicamente, mas culturalmente. A cultura, assim, não tem nada de universal: o que existe é uma diversidade cultural, e cada uma delas deve ser respeitada em sua particularidade.

Exemplos de relativismo cultural

Para entender melhor o conceito, é possível vislumbrar como a visão do relativismo cultural foi aplicada nos estudos antropológicos. Nas mais diferentes culturas do mundo, antropólogos e antropólogas descobriram uma vasta diversidade cultural. Confira a seguir alguns exemplos.

Franz Boas e os esquimós

O antropólogo Franz Boas viveu muitos anos pesquisando os esquimós no Alasca, interessado em como as pessoas percebem de maneira diferente as cores. Em seu estudo, Boas descobriu que, para os esquimós, existe uma palavra para definir água potável e outra para água do mar. Há também diferenças entre a neve que está no chão, a que está caindo e aquela que cai com o vento.

Já na cultura norte-americana, por exemplo, essas sutilezas não são percebidas. Portanto, a depender da cultura, as pessoas podem perceber de maneira diferente os fenômenos da natureza.

Mead entre os Tchambuli

Margaret Mead foi uma antropóloga norte-americana que pesquisou diversas culturas, entre elas a Tchambuli. Ela queria estudar como se definiam as personalidades de homens e mulheres e compará-las com a cultura estadunidense. Descobriu que, entre os Tchambuli, as mulheres eram tipicamente agressivas e dominadoras, enquanto os homens eram calmos e cuidavam da família e das crianças.

Dessa forma, os estereótipos sexuais (ou de gênero) são variáveis entre as sociedades. A visão ocidental das mulheres como dóceis e calmas e de homens como mais agressivos e dominantes é apenas uma das possibilidades culturais. Os papeis sexuais são relativos a cada cultura.

Malinowski e o Kula

Bronislaw Malinowski foi um dos primeiros antropólogos a revolucionar a antropologia por iniciar pesquisas com observação participante dentro do grupo. Ele estudou culturas nas ilhas Trobriand e descobriu um grande sistema cultural de troca que existia entre essas ilhas, chamado de Kula.

Uma das grandes descobertas de Malinowski foi que os povos trocavam entre si presentes valiosos, como colares e braceletes. No fim de uma grande festa, eles queimavam todos os mantimentos e bens que possuíam. Assim, é possível relativizar duas coisas: primeiro, o que é valioso para uma cultura pode não ser o mesmo para outra; segundo, a acumulação capitalista não é algo desejável em todas as culturas.

DaMatta e os nomes pessoais nos Apinayé

Roberto DaMatta é um importante antropólogo brasileiro que estudou os Apinayé em Goiás, no Brasil. Ele descobriu que os nomes pessoais dos Apinayé servem como uma forma de estabelecer relações sociais entre o tio materno e o sobrinho. Os nomes não poderiam ser transmitidos de pai para filho porque existem regras específicas para essa transmissão.

Nas sociedades ocidentais acontece o contrário: o nome geralmente serve para individualizar – na maioria dos casos, a escolha do nome é feita de maneira mais aleatória ou diversificada.

Sahlins e o vestuário entre norte-americanos

Se as culturas não-ocidentais são relativizadas, Marshal Sahlins faz também uma relativização das ocidentais. O antropólogo faz uma descrição da “estranheza” com que se pode observar a forma como os norte-americanos se vestem e o que cada vestimenta representa culturalmente.

Por exemplo, existem roupas para ocasiões adequadas – não se usa um terno na praia, nem um biquíni em um museu. Além disso, elas são separadas por gênero – existem roupas “masculinas” e “femininas”. Entretanto, outras culturas dão outros significados para as roupas e as formas de se vestir.

Desse modo, o relativismo cultural nos faz perceber as diferenças como uma diversidade possível, e não como algo inferior ou mesmo que deveria ser eliminado. Cada cultura percebe e age em relação ao mundo de maneira diferente. Consequentemente, não há melhor ou pior.

Relativismo cultural x Etnocentrismo

O etnocentrismo é a atitude de julgar outra cultura a partir da própria, considerando, muitas vezes, essa outra como inferior. O termo “etno” remete à cultura e “centrismo” aponta justamente para essa visão errônea e hierárquica de ver “a partir do seu próprio umbigo”. O relativismo cultural, ao contrário, tenta sair do centro de sua própria sociedade para tentar entender a cultura do outro em suas lógicas próprias.

O relativismo cultural é considerado o oposto do etnocentrismo. Na verdade, em grande medida, foi para combater o etnocentrismo da antropologia evolucionista que o relativismo cultural surgiu. As outras linhas na história da antropologia, como a culturalista ou o estruturalismo francês, visam cada vez mais se distanciar de uma visão etnocêntrica.

Críticas ao relativismo cultural

O relativismo cultural tem efeitos políticos importantes, principalmente no combate ao etnocentrismo e ao racismo. No entanto, atualmente, existem críticas a esse conceito, que é considerado muitas vezes ultrapassado.

Para muitos antropólogos, o relativismo cultural – principalmente na versão norte-americana de Franz Boas – acaba muitas vezes endossando a visão da existência de culturas separadas, distintas e estáticas. Consequentemente, acaba não abarcando as possibilidades de mudança dentro de uma cultura.

Uma das grandes questões que surgem desse problema é a violência. Dentro de uma cultura, existem diversas pessoas e também relações de poder. É possível que haja uma tradição, por exemplo, que violente mulheres e homossexuais dentro de uma sociedade. Só porque essa é uma tradição cultural, quer dizer que ela é legítima ou que deve ser respeitada?

Para alguns antropólogos atuais, é necessário levar em conta as diferentes pessoas que existem dentro de uma cultura, as condições em que estão submetidas e as suas possibilidades de mudança. Por isso, surgem conceitos como “povo” para substituir “cultura”, tentando vislumbrar as transformações que um povo pode assumir.

De todo modo, o relativismo cultural é um dos conceitos mais importantes da antropologia e produz efeitos políticos importantes. Contudo, é também necessário estar atento ao desenvolvimento das pesquisas que aprofundam, cada vez mais, o conhecimento sobre a diversidade humana.

Referências

Argonautas do Pacífico Ocidental – Bronislaw Malinowski;

Sexo e temperamento – Margaret Mead;

Cultura na prática – Marshall Sahlins;

Relativizando: uma introdução à antropologia social – Roberto DaMatta;

Jamais fomos modernos – Bruno Latour;

Gênero e colonialidade: em busca de chaves de leitura e de um vocabulário estratégico descolonial – Rita Laura Segato;

Guerras culturais e relativismo cultural – Mauro W. B. de Almeida;

Cem anos de um livro que marcou o século XX – Mauro W. B. de Almeida.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UERJ]

O alemão Franz Boaz foi o primeiro a ressaltar a importância do estudo das diversas culturas em seu próprio contexto, a partir das suas peculiaridades. Boaz ressaltava não haver cultura superior ou inferior. Para ele, deveriam ser considerados os fatores históricos, naturais e linguísticos que influenciavam o desenvolvimento de cada cultura em particular.

Adaptado de LUCCI, Elian A. e outros. Território e sociedade no mundo globalizado: geografia geral e do brasil. São Paulo: Saraiva, 2010.

A abordagem apresentada no texto foi desenvolvida a partir do início do século XX e originou uma nova perspectiva das ciências sociais em relação ao estudo das culturas.
Essa perspectiva é denominada:

A) Relativismo
B) Materialismo
C) Evolucionismo
D) Etnocentrismo

Resposta: A

Justificativa: o relativismo é a perspectiva que foi desenvolvida por Franz Boas como uma alternativa à antropologia evolucionista vigente na época.

2. [UFU]

A estética nas diferentes sociedades vem geralmente acompanhada de marcas corporais que individualizam seus sujeitos e sua coletividade. Discos labiais, piercings, tatuagens, mutilações, pinturas, vestimentas, penteados e cortes de cabelo são algumas marcas reconhecíveis de um inventário possível das técnicas corporais em toda sua riqueza e diversidade.
Embora universal, as formas das quais se valem os grupos e indivíduos para se marcarem corporalmente são vistas, às vezes, como estranhas a indivíduos que pertencem a outros grupos.
Essa atitude de estranhamento em relação ao diferente é considerada conceitualmente como:

A) Preconceito: reconhece no valor das raças o que é correto ou não na estética corporal.
B) Relativização: o outro é entendido nos seus próprios termos.
C) Etnocentrismo: só reconhece valor nos seus próprios elementos culturais.
C) Etnocídio: afasta o diferente e procura transformá-lo num igual.

Resposta: C

Justificativa: as formas de demarcação corporal são fenômenos culturais e, como tais, são diversos ao redor do mundo. Ter uma atitude que se valoriza apenas a estética da sua própria cultura é uma ação etnocêntrica para com a cultura do outro.

3. [UEM]

“Eles recusam-se a matar as vacas e comer sua carne porque, para eles, a vaca é um símbolo religioso da vida. Calendários de parede por toda a Índia rural exibem lindas mulheres com corpos de vacas brancas e gordas, com leite jorrando de suas tetas. As vacas podem andar pelas ruas, defecar nas calçadas, parar para ruminar em cruzamentos engarrafados ou em trilhos de trem, fazendo com que o trânsito pare completamente.” (BRYM, R. et al. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thomson Learning, 2006, p. 84).

A partir do texto acima e das discussões antropológicas sobre o etnocentrismo, o relativismo e a diversidade cultural, é correto afirmar que:

01) A super proteção das vacas na Índia a partir do pressuposto de que se trata de um animal sagrado é claramente um sinal do atraso dessa cultura em relação às culturas ocidentais.
02) O respeito a outras culturas é viável desde que isso não atrapalhe o desenvolvimento mundial. Nesse caso, os interesses ocidental, capitalista, devem prevalecer sobre as práticas culturais locais.
04) A sacralidade das vacas na Índia está relacionada a um complexo e coerente sistema cultural e, por isso, merece ser respeitada como qualquer outra expressão coletiva, e reconhecida como legítima.
08) O relativismo é a atitude metodológica que o pesquisador deve assumir quando pretende desenvolver um trabalho coerente com as premissas da antropologia contemporânea.
16) O etnocentrismo é a atitude diante de culturas distintas que implica o julgamento das mesmas a partir dos valores culturais do observador. Isso acarreta uma impossibilidade de compreensão e a distorção dos valores culturais observados.

Resposta: 28 (04+08+16)

Justificativa: ver a tradição cultural indiana como um atraso ou que atrapalha o desenvolvimento mundial é uma visão etnocêntrica, que parte dos elementos culturais ocidentais para julgar uma outra cultura. Faz parte do relativismo cultural reconhecer a legitimidade da cultura do outro. É assim que, atualmente, a antropologia consegue em geral conhecer de maneira mais coerente e justa outras culturas.

4. [UNESP]

Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e buscar a simbiose do melhor de todas as culturas. A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação.
Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais.
(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.)

No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve:

A) Reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas.
B) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história.
C) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais.
D) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história.
E) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa.

Resposta: D

Justificativa: o autor critica como os ideais ocidentais se basearam em concepções etnocêntricas que culminaram em, muitas vezes, violências contra outras culturas.

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