Modernidade líquida

A modernidade líquida descreve a sociedade atual em termos de fluidez e instabilidade das relações sociais. Assim, o termo serve tanto para perceber o tempo presente como para criticá-lo.

Há muitas teorias sociológicas que tentam entender os dias atuais. Dentre elas, existem, por exemplo, a “pós-modernidade”, a “hipermodernidade”, a “segunda modernidade” ou “alta-modernidade”. Essas são ideias que colocam no passado uma modernidade que hoje foi superada ou se coloca de uma outra forma. A “modernidade líquida” é um desses conceitos que tentam entender o mundo atual.

A modernidade líquida é um conceito que foi proposto pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Para o autor, os tempos que a humanidade viveu anteriormente caracterizavam uma “modernidade sólida”. Assim, o passado e o presente se diferenciam por uma liquidez das relações sociais. Entenda mais sobre essa ideia central de Bauman a seguir.

Características da modernidade líquida

A modernidade líquida é um conceito criado pelo sociólogo Zygmunt Bauman para caracterizar a nova modernidade vivida a partir do século XX. O aumento do individualismo, a menor força da noção de comunidade, a meritocracia e a redução de projetos a longo prazo são processos que deram origem à modernidade líquida.

Em todos os aspectos desses novos tempos, o que fica evidente é o sentimento de insegurança, imprevisibilidade e falta de certezas: nos termos de Bauman, as relações sociais se tornaram líquidas e fluidas, com pouca concretude. Nesse estado de liquidez, os projetos coletivos, os planos a longo prazo e os espaços públicos cada vez mais diminuem.

Ao contrário, o que prevalece na modernidade líquida é a mudança constante. Assim como as tecnologias estão em constante transformação, as relações entre as pessoas também se tornam efêmeras e interessadas, voltadas apenas ao prazer individual. O que é público e coletivo passa a ser de interesse cada vez menor a esses indivíduos.

As redes sociais oferecem uma ilustração dessa modernidade líquida. Os contatos entre as pessoas são efêmeros e cada indivíduo está preocupado com seus próprios benefícios. Aplicativos de relacionamentos amorosos também colocam as pessoas em um fluxo rápido e descartável.

Modernidade sólida x Modernidade líquida

Para Bauman, o que estava estabelecido antes da modernidade líquida era a modernidade sólida. Ela começou a emergir por volta do século XV, questionando os padrões antigos e começando desde então uma série de revoluções, como foi a Revolução Francesa do século XVIII. A modernidade sólida derreteu os sólidos do seu passado e instituiu novos: a ideia do progresso, da liberdade, da ciência, da previsibilidade e da ordem.

Assim, se a modernidade sólida colocou algo sólido no lugar daquilo que destruiu do seu passado, a modernidade líquida não o fez. Ao invés disso, ao derreter as certezas no progresso e na ciência, a liquidez dos nossos dias atuais deixou apenas a incerteza, as mudanças contínuas e um futuro indeterminado.

Consumismo na modernidade líquida

O consumismo é uma das características principais na modernidade líquida e tem relação com outro grande fenômeno: o crescimento do individualismo. Como as pessoas são movidas em geral pelos seus prazeres e benefícios individuais, o consumismo torna-se parte da vida social. Além disso, aqueles que não consomem – por exemplo, moradores de rua – não são considerados indivíduos plenos dentro da sociedade.

Com isso, Bauman argumenta também que a tendência geral é de uma infelicidade crescente. Afinal, componentes básicos de felicidade geralmente nascem dentro de uma vida social, do companheirismo, da amizade e do amor. O individualismo e o consumismo, dois fatores marcantes da modernidade líquida, fazem com que as pessoas tendam ao lado contrário desses aspectos.

Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman nasceu na Polônia, em 1925. Faleceu com 91 anos, em 2017, e até o final de sua vida publicou livros – cerca de dois por ano – e dava palestras. Ele sofreu com a Segunda Guerra Mundial e a perseguição nazista por ser de família judia, fugindo para a Rússia na ocasião.

Também pela sua experiência com tais catástrofes, Bauman estudou os processos que levam as pessoas à desumanização. Assim, ficou conhecido também como um integrante de uma “sociologia humanística”. Ele foi casado por 62 anos com Janine, que faleceu em 2009. Ela influenciou decisivamente o pensamento do autor, defendendo a construção de relações amorosas mais sólidas e menos efêmeras, como ocorre na modernidade líquida.

Sua obra tem referências de autores como Antônio Gramsci, Michel Foucault e Mary Douglas. Bauman também se preocupou em tornar a sociologia acessível ao público leigo, na tentativa de ajudar as pessoas a perceberem como suas relações sociais são construídas.

Frases sobre modernidade líquida

Algumas sentenças podem ajudar a entender melhor o conceito de modernidade líquida. Bauman foi um autor engajado em levar a sociologia para o mundo cotidiano das pessoas, fazendo com que seu conceito também seja claro de aplicar no dia a dia. Algumas frases úteis nesse sentido foram selecionadas; confira abaixo.

  • “A passagem da fase ‘sólida’ da modernidade para a ‘líquida’ – ou seja, para uma condição em que as organizações sociais […] – não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam.” (Zygmunt Bauman, Vida para consumo).
  • “O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes é o ego nu, atemorizado e agressivo à procura de amor e de ajuda. Na procura de si mesmo e de uma sociabilidade afetuosa, ele facilmente se perde na selva do eu…” (Zygmunt Bauman, Modernidade líquida).
  • “A força militar e seu plano de guerra de ‘atingir e correr’ prefigura, incorpora e pressagia o que de fato está em jogo no novo tipo de guerra na era da modernidade líquida: não a conquista de novo território, mas a destruição das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes globais”. (Zygmunt Bauman, Modernidade líquida).
  • “O ‘derretimento dos sólidos’, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na agenda política.” (Zygmunt Bauman, Modernidade líquida).
  • “Como os compromissos de hoje são obstáculos para as oportunidades de amanhã, quanto mais leves e superficiais eles forem, menor o risco de prejuízo. ‘Agora’ é a estratégia de vida […] Num mundo inseguro e imprevisível”. (Zygmunt Bauman, Modernidade líquida).
  • “Nossa vida está longe de ser livre de medo, e o ambiente líquido-moderno em que tende a ser conduzida está longe de ser livre de perigos e ameaças. A vida inteira é agora uma longa luta e provavelmente impossível de vencer.” (Zygmunt Bauman, Medo líquido).
  • “Em suma: foi-se a maioria dos pontos firmes e solidamente marcados de orientação que sugeriam uma situação social que era mais duradoura, mais segura e mais confiável do que o tempo de uma vida individual.” (Zygmunt Bauman, Comunidade).

Portanto, além de descrever como ocorre a modernidade líquida, Bauman também se preocupou em realizar uma crítica contra ela. A vida humana em termos de felicidade e sentimento de comunidade se esvaziam nos tempos atuais, conforme o autor. Consequentemente, é necessário pensar coletivamente em uma vida alternativa.

Entenda mais sobre modernidade líquida

O conceito de modernidade líquida virou uma temática presente em debates de diversos campos. Entenda mais sobre como esse termo pode se aplicar na vida cotidiana e como as pessoas podem se utilizar dele.

Mais sobre a modernidade líquida

Confira uma explicação detalhada do conceito de modernidade líquida a partir das obras de Zygmunt Bauman. Ele faz parte da sociologia contemporânea, ou seja, os estudos sociológicos que tentam entender as relações sociais nos dias atuais.

O sentido de “líquido”

Esse vídeo interessante pensa com cuidado a metáfora de “líquido” utilizado por Bauman para falar dos tempos atuais. Para isso, é feito um diálogo com os conhecimentos da Física, com o objetivo de entendermos melhor a nossa sociedade.

O amor líquido

Uma das relações mais afetadas na modernidade líquida são as amorosas. As crises sobre o amor romântico nos dias atuais são retratadas em diversos filmes e séries, exemplificadas nesse vídeo.

Entrevista com Zygmunt Bauman

Veja essa entrevista com o autor do conceito de modernidade líquida, Zygmunt Bauman. Ela foi realizada em 2011 e traz ainda o sociólogo ativo e produzindo conhecimento sobre a sociedade, como o fez até o final de sua vida.

Desse modo, o conceito de modernidade líquida de Bauman conseguiu penetrar diversas áreas e serve atualmente para repensarmos a qualidade das nossas relações sociais. Esse pode ser elencado como um dos objetivos da sociologia do autor. Entretanto, é importante ressaltar que já existem críticas e revisões desse conceito, e o conhecimento sociológico ainda está em desenvolvimento sobre essa temática.

Referências

Zygmunt Bauman: vida, obra e influências autorais – David Moiseis Barreto dos Santos;

Modernidade líquida e liberdade consumidora: o pensamento crítico de Zygmunt Bauman – Tiago de Oliveira Fragoso;

O conceito de líquido em Zygmunt Bauman: contemporaneidade e produção de subjetividade – Rafael Bianchi da Silva; Jéssica Paula Silva Mendes; Rosieli dos Santos Lopes Alves;

Zygmunt Bauman: a sociedade contemporânea e a sociologia na modernidade líquida – Larissa Pascutti de Oliveira;

Modernidade líquida – Zygmunt Bauman.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [IFPA]

Um importante sociólogo contemporâneo é polonês Zygmunt Bauman. Preocupado com as novas dinâmicas da vida social, propõe um empreendimento reflexivo que tem como norte as recentes modificações do mundo atual. Em relação às análises de Bauman é INCORRETO afirmar:
A) Liquidez é a metáfora que Bauman utiliza para explicar o sentido da pós-modernidade.
B) Desmoronamento da antiga ilusão moderna, ou seja, questionamento da crença de que há um fim do caminho em que andamos, um estado de perfeição a ser atingido no futuro.
C) Desregulamentação e privatização das tarefas e deveres modernizantes. Na modernidade líquida, não existem mais valores individuais, apenas sociais.
D) Nesta sociedade líquida, transformada pelo mercado, também os valores mais importantes da vida passam pelo mesmo processo de materialização tal qual uma simples mercadoria.
E) O processo de transformação pelo qual passa a humanidade pode ser aplicado ao mundo globalizado que, na sua empolgação compulsiva para produzir bens de consumo acaba produzindo um número significante de lixo.

Resposta: C

Justificativa: a única alternativa incorreta é a C, que afirma que na modernidade líquida prevalecem os valores sociais. Ao contrário, o individualismo é uma marca central na liquidez da sociedade contemporânea.

2. [BIO-RIO]

Zigmunt Bauman é o teórico que criou o conceito de modernidade líquida para caracterizar a sociedade dos tempos em que vivemos, na qual toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior foram desacreditados.
Em suas palavras:
“Quando o Estado reconhece a prioridade e a superioridade das leis do mercado sobre as leis da polis, o cidadão transforma-se em consumidor – e o consumidor demanda mais e mais a proteção, enquanto aceita cada vez menos a necessidade de participar no governo do Estado. O resultado global são as atuais condições fluidas de anomia generalizada e rejeição das normas em todas as suas versões.” Zigmunt Bauman
A passagem do texto acima que melhor caracteriza a liquidez, fluidez, volatilidade, incerteza e insegurança de nossa época se expressa na forma abaixo transcrita:
(A) [o consumidor] “aceita cada vez menos a necessidade de participar no governo do Estado”.
(B) “o Estado reconhece a prioridade e a superioridade das leis do mercado sobre as leis da polis”.
(C) “o cidadão transforma-se em consumidor”.
(D) “condições fluidas de anomia generalizada e rejeição das normas em todas as suas versões”.
(E) “o consumidor demanda mais e mais a proteção”.

Resposta: D

Justificativa: a alternativa D exprime a fluidez e as incertezas da modernidade líquida, principalmente ao mencionar a rejeição das normas sociais anteriores. A exacerbação do individualismo e a busca constante por mudanças desestabiliza esses padrões antigos.

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