Mobilidade social

A mobilidade social é um importante tema de pesquisa na Sociologia. A partir dela, é possível estudar as desigualdades sociais existentes em um país.

Diversas pesquisas sociológicas confirmam que vivemos em uma sociedade estratificada, ou seja, hierarquizada. Existem desigualdades sociais, políticas e econômicas entre os indivíduos. Em outras palavras, existe uma distribuição desigual de oportunidades dadas a diferentes grupos de pessoas.

Em uma sociedade assim, hierarquizada, como ocorre a ascensão econômica de alguns indivíduos? Ocorre também um rebaixamento? Quais fatores afetam as mudanças nas condições socioeconômicas das pessoas? Todas essas perguntas são explicadas a partir do conceito de mobilidade social, ou seja, a maneira como os indivíduos se movem nessa sociedade estratificada. Veremos alguns de seus desdobramentos a seguir.

Contexto e significado

As Sociologias clássicas de Marx, Durkheim e Weber, cada uma, possuem teorias e percepções diferentes sobre a sociedade. Entretanto, todos eles possuem como categoria central de estudo o trabalho.

Mas por que o trabalho se tornou tão importante para os estudos desses autores que viveram o século XIX? É que, nessa época, a forma de as pessoas trabalharem e serem organizadas por meio do trabalho estava em um ápice de modificação.

Essa forma de trabalhar que estava em transformação ocorre muito em função do desenvolvimento capitalista e industrial. Esse sistema capitalista, por sua vez, modificava uma situação anterior: o feudalismo.

Apesar de algumas controvérsias, o feudalismo é conhecido como um regime que não permitia nenhuma mobilidade social. Esse tipo de sociedade era organizado em algumas hierarquias, como os senhores feudais e os vassalos. Quem pertencia a um grupo não poderia ascender a uma classe superior, ou o contrário.

O desenvolvimento capitalista, o liberalismo e a ascensão da burguesia questionavam os privilégios senhoriais e da nobreza na tentativa de ampliar a possibilidade de mobilidade social. As promessas de “igualdade, liberdade e fraternidade” da Revolução Francesa são um exemplo disso.

No entanto, como sabe-se atualmente, as pessoas continuam segregadas em condições socioeconômicas diferentes. Na prática, as desigualdades sociais impedem ou facilitam a mobilidade social de alguns indivíduos a partir dos estratos a que pertencem.

Essa nova sociedade organizada em torno do trabalho no sistema capitalista e suas desigualdades sociais são abordadas de diferentes maneiras por Marx, Durkheim e Weber, no início da Sociologia. Entretanto, esse tema foi bastante desenvolvido na Sociologia a partir de então.

Além desse modelo ocidental, há outras formas de estratificação, como o sistema de castas. Nesse modelo, a posição social das pessoas é determinada pelo seu nascimento e ela jamais muda. É proibido, por exemplo, o casamento entre indivíduos de castas diferentes. Ou seja, não há mobilidade social nesse tipo de sistema.

Tipos e exemplos

A pesquisa sociológica avançou sobre a temática da mobilidade social. Assim, criaram-se também alguns tipos que classificam as formas de se mover dentro dos estratos que dividem a sociedade.

Mobilidade horizontal

A mobilidade horizontal diz respeito às modificações ocorridas na vida social de um indivíduo que não acarreta uma mudança no estrato ao qual ele pertence na sociedade. Ele permanece na mesma posição social, mesmo que tenha ocorrido uma alteração na sua vida individual.

Exemplo: uma pessoa que ganha dois mil reais trabalhando como vendedora em um shopping muda de emprego, sendo agora secretária de dentista com o mesmo salário. Não houve uma mudança em sua posição socioeconômica ou mesmo política.

Mobilidade vertical

Na mobilidade vertical ocorre uma mudança, um movimento de uma posição hierárquica para outra em termos econômicos, de poder ou de prestígio simbólico. Esse movimento pode ser descendente ou ascendente.

A mobilidade descendente acontece com o rebaixamento de um indivíduo na hierarquia social.

Exemplo 1: um proprietário que perde seus bens e precisa agora viver como um assalariado. Já na mobilidade ascendente, o movimento é o oposto: o sujeito é elevado a um nível de prestígio simbólico, econômico ou político maior.

Exemplo 2: uma pessoa desempregada, depois de concluir um ensino superior, obtém um emprego que lhe proporciona maiores condições financeiras e prestígio social.

Mobilidade intrageracional

Esse tipo ocorre quando há mobilidade social na vida de um indivíduo ou de uma geração.

Exemplo: um casal gera dois filhos; ambos saem da escola antes de receber o diploma porque começaram a trabalhar. Anos mais tarde, um decide voltar aos estudos, realiza um ensino superior e ascende socialmente. Enquanto isso, o outro perde o emprego e acaba rebaixado em hierarquia social. Nesse caso, houve duas mobilidades intrageracionais: enquanto um ascendeu, outro decaiu.

Mobilidade intergeracional

A mobilidade intergeracional descreve a mobilidade social que acontece entre gerações.

Exemplo: uma filha que tem um pai agricultor, que não tem a própria terra, adentra em um curso superior e ascende de posição socioeconômica. Se ela decidisse seguir a mesma carreira de seu pai, não haveria uma mobilidade intergeracional.

Fatores que influenciam a mobilidade social

A sociedade é hierarquizada e é desigual na distribuição de oportunidades para as pessoas. Isso acontece em função de alguns condicionantes, como raça e gênero. Consequentemente, alguns grupos sociais possuem maior dificuldade, por exemplo, para ter uma mobilidade social ascendente.

Pierre Bourdieu mostra como as pessoas ocupam posições diferentes na sociedade e como elas possuem recursos em níveis desiguais para competir umas com as outras. Nesse quesito entram não apenas questões econômicas, mas também simbólicas. Esses fatores influenciam o grau de mobilidade social.

Obter um curso de nível superior, uma pós-graduação, conhecer artes eruditas e nomes da literatura clássica e saber falar conforme a norma cultura do seu próprio idioma são alguns exemplos de recursos simbólicos para ascender socialmente. Isso faz diferença na mobilidade porque as condições para aprender essas coisas não são oferecidas a todas as pessoas.

No caso de uma mobilidade intergeracional, as condições socioeconômicas da família de origem interferem também estatisticamente no destino das pessoas em termos de sua ascensão na hierarquia social.

Os problemas raciais também são um grande fator que interfere na mobilidade social. Por exemplo, países que tiveram um passado escravista como o Brasil possuem uma histórica desigualdade de oportunidades que é mantida de maneira intergeracional.

O gênero também pode interferir a depender do momento histórico e cultural da sociedade. Muitas mulheres já foram proibidas de estudar ou de adentrar em uma universidade para serem ensinadas a cuidar do lar e dos futuros filhos. A mobilidade social que essas mulheres experimentaram seria toda dependente da mobilidade de seus maridos.

Apesar desses fatores serem os mais tradicionalmente analisados nas pesquisas sociológicas, podem ser elencados diversos outros elementos. Eles geralmente fazem parte de marcadores de diferença que determinam o que é “normal” ou aceitável socialmente e violentam as pessoas que não fazem parte desse padrão ideal. Por exemplo, pessoas com deficiência podem ter dificuldade na mobilidade social, ou mesmo indivíduos transgênero.

Mobilidade social no Brasil

As análises sobre a mobilidade social em um país geralmente se baseiam no escopo da mobilidade intergeracional. Faz-se um estudo estatístico da relação entre a ocupação de trabalho da primeira geração (por exemplo, o pai) com a ocupação da segunda geração (por exemplo, o filho).

Desse modo, é possível analisar as tendências de mobilidade social intergeracional em diversos períodos em um país para avaliar se as pessoas estão ascendendo socialmente.

Estudos mostram, por exemplo, que houve uma diminuição da desigualdade de renda no Brasil entre 1990 e 2010. Isso significa que ocorreu uma movimentação das pessoas entre os estratos sociais, no sentido de reduzir a distância econômica entre as classes abastadas e as mais pobres.

Nesse período, o fator educacional, ou seja, o investimento na escolarização da população é um dos aspectos mais importantes de influência. No entanto, esses dados também estão sempre em disputa e em debate. As pesquisas mostram que, mesmo que a desigualdade de renda tenha diminuído, as injustiças sociais não foram reduzidas ao longo do tempo.

O fator intergeracional, ou seja, a classe de origem das pessoas continua sendo um elemento que influencia em grande medida a possibilidade de mobilidade social no Brasil. Isso coloca uma série de desafios para as pesquisas sociológicas e as políticas públicas no país.

Dizer que a origem social é um fator estatisticamente forte na mobilidade social brasileira significa analisar outros aspectos: por exemplo, a questão racial. O Brasil atual é composto por mais de 50% de pessoas que se declaram negras. Mesmo sendo a maioria, quando analisado fatores econômicos e educacionais, as pessoas que se declaram brancas possuem os índices mais elevados.

O passado escravista no Brasil é um dos aspectos a serem analisados nesse cenário. Isso porque, após a Abolição da Escravidão em 1888, não houve nenhuma política de integração da população negra nos estratos sociais mais abastados. Grande parte da riqueza produzida pelas pessoas anteriormente escravizadas continuou, assim, na mão dos senhores brancos.

Essas riquezas são passadas de maneira intergeracional. Enquanto houve uma política pública de incentivo à imigração como forma de branqueamento da população, não houveram ações de reparação dos danos à população anteriormente escravizada. Esse ainda é um problema debatido no Brasil.

Existem, ainda, outros fatores que condicionam a mobilidade social das pessoas na estrutura social. Como é possível notar, essa é uma temática que as pesquisas sociológicas ganham grande importância para a elaboração de políticas públicas. É importante que o estudo da sociedade brasileira se aprofunde e se amplie para tratar com seriedade as condições da vida social no Brasil.

Referências

Mobilidade social, valores morais e segregação espacial – Marcelo Medeiros;

Organização social e movimentos sociais rurais – Ivaldo Gehlen e Daniel Gustavo Mocelin;

Mobilidade social na Idade Média: um breve estudo sobre os ministeriales na Alemanha – José Henrique Rollo;

Desigualdades raciais, racismo e políticas públicas: 120 anos após a abolição – Ipea, Diretoria de Estudos Sociais;

A integração do negro na sociedade de classes – Florestan Fernandes;

Colonização, imigração e a questão racial no Brasil – Giralda Seyferth;

Um Brasil menos desigual? Mobilidade social baixa e evolução lenta da escolaridade média – Valerio Arcary;

Quatro décadas de mobilidade social no Brasil – Carlos Antonio Costa Ribeiro.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [Unicentro]

Em relação ao sistema de castas de uma sociedade, assinale a alternativa correta.
a) Existe mobilidade social dentro de uma sociedade de castas.
b) A exogamia faz parte dos casamentos realizados em sociedades de castas.
c) Não existe mobilidade social dentro de uma sociedade de casta.
d) Dentro de um sistema de castas não é importante a hereditariedade.
e) Em um sistema de casta não existe a divisão entre castas superiores e inferiores.

Resposta: C
Justificativa: Uma das características centrais de um sistema de castas é não haver mobilidade social. Uma das consequências é, por exemplo, não ser possível membros de castas diferentes se casarem. Assim, a hereditariedade e a hierarquia são importantes nesse sistema.

2. [Ufub]

De acordo com a teoria de Marx, a desigualdade social explica-se:
a) Pela distribuição da riqueza de acordo com o esforço de cada um no desempenho de seu trabalho.
b) Pela divisão da sociedade em classes sociais, decorrente da separação entre proprietários e não proprietários dos meios de produção.
c) Pelas diferenças de inteligência e habilidade inatas dos indivíduos, determinadas biologicamente.
d) Pela apropriação das condições de trabalho pelos homens mais capazes em contextos históricos, marcados pela igualdade de oportunidades.

Resposta: B
Justificativa: a teoria de Marx faz parte da Sociologia clássica que explica as desigualdades sociais não por um argumento individualista ou capacitista. As desigualdades sociais são explicadas por meio da realidade social. Assim, Marx e outros autores demonstram que não há uma igualdade de oportunidades para todas as pessoas e a mobilidade social em direção ascendente por membros de classes baixas é uma realidade difícil. Como aprendemos, a origem da família em termos de classe e propriedade é um forte determinante na mobilidade social do indivíduo.

3. [UEL]

Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi implantado, no exame vestibular, o sistema de cotas raciais, que desencadeou uma série de discussões sobre a validade de tal medida, bem como sobre a existência ou não do racismo no Brasil, tema que permanece como uma das grandes questões das Ciências Sociais no país. Roger Bastide e Florestan Fernandes, escrevendo sobre a escravidão, revelam traços essenciais do racismo à brasileira, observando que: “Negro equivalia a indivíduo privado de autonomia e liberdade; escravo correspondia (em particular do século XVIII em diante) a indivíduo de cor. Daí a dupla proibição, que pesava sobre o negro e o mulato: o acesso a papéis sociais que pressupunham regalias e direitos lhes era simultaneamente vedado pela ‘condição social’ e pela ‘cor’.” (BASTIDE, R.; FERNANDES, F. Brancos e negros em São Paulo. 2.ed. São Paulo: Nacional, 1959. p. 113-114.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre a questão racial no Brasil, é correto afirmar:
a) O racismo é produto de ações sociais isoladas desconectadas dos conflitos ocorridos entre os grupos étnicos.
b) A escravatura amena e a democracia nas relações étnicas levaram à elaboração de um ‘racismo brando’.
c) As oportunidades sociais estão abertas a todos que se esforçam e independem da ‘cor’ do indivíduo.
d) Nas relações sociais a ‘cor’ da pessoa é tomada como símbolo da posição social.
e) O comportamento racista vai deixando de existir, paulatinamente, a partir da abolição dos escravos.

Resposta: D
Justificativa: A estrutura social determina algumas posições de indivíduos na sociedade. Isso dificulta ou facilita a mobilidade social das pessoas ao longo da sua vida ou de gerações. A questão racial é um dos fatores que interfere e estrutura essa mobilidade, uma vez que o fator fenotípico – a “cor” e outros aspectos físicos – de um indivíduo faz com que ele seja enquadrado em uma posição social marginalizada no Brasil.

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