Meritocracia

Uma das ideologias políticas mais disseminadas, a meritocracia exalta o esforço e o mérito individual em uma sociedade capitalista.

A meritocracia é um conceito sociológico. Trata-se de um conjunto de valores que atestam que o poder pode ser conquistado por mérito individual. O poder, nesse sentido, pode ser uma profissão de prestígio, um cargo político ou mesmo a ascensão social e econômica.

Nessa ideologia é realizada uma exaltação do indivíduo. Por isso, o poder conquistado socialmente é descrito em termos de “conquistas”, “realização pessoal” ou mesmo de “vitórias”. A seguir, essa temática será melhor explanada.

Significado e conceito sociológico

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Conforme o Dicionário Michaelis, meritocracia é uma “forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência.”

Essa definição está próxima do que Max Weber pensou a respeito da burocracia capitalista, que leva em conta os cálculos em termos de produtividade e não considera a pessoa em seu contexto social. Portanto, a meritocracia está alinhada com o sistema capitalista.

A meritocracia surge como uma alternativa ideológica à aristocracia e a monarquia. E qual a ideologia da meritocracia? Ao invés de uma sociedade baseada em privilégios de herança ou de tradições, esse sistema de valores impõe que as possibilidades de mobilidade social e de status sejam baseadas em méritos individuais.

Por isso, a meritocracia comunga com as ideologias do liberalismo clássico e do individualismo. Para a burguesia europeia em ascensão do século XVIII, próximos da Revolução Francesa, era necessário retirar os aristocratas e os monarcas do poder para dar lugar a uma “livre competição” entre os indivíduos.

Desse modo, o indivíduo é pensado fora de seu contexto social. Então, qual é o oposto da meritocracia? Os privilégios aristocráticos e monárquicos são certamente contrários à ideologia meritocrática.

Entretanto, também é oposto da meritocracia pensar as origens sociais dos indivíduos. Diversas pesquisas mostram que fatores como classe, raça e gênero influenciam na ascensão social das pessoas. Assim, como todos os indivíduos poderiam competir igualmente?

Para a ideologia meritocrática, todas as pessoas podem ascender socialmente por meio do esforço e da competência de maneira individualista. Os indivíduos estão em uma competição – ou seja, há aqueles que vencem e os que perdem. E essa vitória ou perda é sempre justificada em termos de méritos individuais

Exemplos de meritocracia

Atualmente, a ideologia meritocrática está impregnada nas mais diversas relações sociais. É possível visualizar uma meritocracia religiosa quando Max Weber escreve a respeito da ética protestante e o espírito do capitalismo, por exemplo.

Para o sociólogo, a disseminação de uma ética protestante favoreceu o estabelecimento do sistema capitalista. Para o calvinismo, a salvação seria dada para indivíduos predestinados, e a execução de um trabalho árduo e contínuo seria uma maneira de demonstrar a graça recebida.

Entretanto, é no trabalho e na educação que é possível vislumbrar mais fortemente a ideologia da meritocracia.

Meritocracia no trabalho

O trabalho é central na ideologia da meritocracia. Por exemplo, quando é dito que todos os funcionários podem conquistar a vaga de chefia algum dia e que tudo depende de seus esforços. Entretanto, mesmo que todos se esforcem, há um número limitado para o cargo.

O ideal meritocrático fica evidente em Frederick Taylor, engenheiro norte-americano que racionalizou as relações de trabalho e formulou maneiras novas de conseguir maior produtividade. No método taylorista, é realizada uma observação constante dos indivíduos para garantir que cada um seja produtivo.

Apesar de ser uma forma de organizar socialmente as pessoas, o método taylorista conta com a legitimidade do ideal meritocrático. Ocorre o mesmo para a maioria dos trabalhos na atualidade, que reproduzem o discurso de que, quanto mais se trabalhar, maiores as chances de ascensão social.

Meritocracia na educação

A educação é uma das primeiras instituições que reproduzem a ideologia meritocrática na sociedade. Conforme o sociólogo Pierre Bourdieu, a escola utiliza critérios universalistas que não cabem a cada indivíduo, que advém de origens sociais diferentes, mas estabelece uma “livre competição” entre todos os alunos.

A forma de avaliação por meio das notas escolares é um método que reproduz a meritocracia porque retira o indivíduo de seu contexto social, fazendo valer apenas o conteúdo escrito e quantificado.

Apesar de existirem diversos meios de avaliar se o estudante aprendeu algo, são os números que traduzem isso. É por meio das notas numéricas que se classificam todos os alunos e se estabelece quem foi melhor ou pior, tendo como base o mérito individual.

Meritocracia e desigualdade social

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A realidade das desigualdades sociais vai contra a ideologia da meritocracia em nossa sociedade. Se admitirmos que vivemos em uma sociedade com oportunidades desiguais, não é possível sustentar a ideia meritocrática de que apenas o esforço individual determina a ascensão ou as condições de alguém.

A perspectiva das desigualdades sociais não elimina os esforços que cada pessoa exerce. Na verdade, indivíduos de camadas mais pobres precisam trabalhar muito apenas para sobreviver. Já as pessoas de classes economicamente abastadas possuem oportunidades de estudar e aplicar seus esforços de maneira rentável.

Além disso, existem grupos sociais que não conseguem adentrar no mercado de trabalho. Um dos exemplos é a pessoa com deficiência, como a população surda, que precisa se adaptar em um mundo que não fala o seu idioma. Outra ilustração é a população transgênero, que frequentemente é alvo de discriminação e é rejeitada nos empregos formais.

Uma pessoa que se esforça e que tem competência não necessariamente consegue ascender socialmente ou obter sucesso. Até mesmo pensadores liberais como Friedrich Hayek admitem esse fato. As desigualdades sociais existem, mantendo algumas pessoas desfavorecidas socialmente e outras não.

O antropólogo Marshall Sahlins é um dos autores que teorizou sobre a realidade do sistema capitalista. Ele demonstra como as sociedades capitalistas não são de abundância de bens, como se pensa recorrentemente. Ao contrário, sociedades tribais, consideradas “primitivas”, eram as verdadeiras sociedades de afluência, no qual os indivíduos não precisavam sobreviver no limite da miséria ou da fome.

Isso mostra como a desigualdade social é um aspecto da sociedade capitalista, e ela convive, por sua vez, com a ideologia meritocrática. Na verdade, o discurso da meritocracia acaba servindo para mascarar ou mesmo reproduzir as desigualdades existentes.

Meritocracia no Brasil

A desigualdade social é uma realidade nas sociedades capitalistas, inclusive no Brasil. Existem, no país, desigualdades de diversas ordens, como no aspecto econômico.

Bens, investimentos e terras são heranças que se acumulam entre gerações. Pessoas de origem de classe abastada possuem, portanto, condições econômicas favorecidas que se arrastam há séculos. No caso das pessoas mais pobres acontece o mesmo, considerando que no Brasil há muitos descendentes de pessoas anteriormente escravizadas.

Considerando que mais da metade da população brasileira é negra, essa maioria é também aquela com menor renda e com menos acesso à educação. Essa desigualdade é persistente desde a Abolição da Escravatura, em 1888.

O passado escravista no Brasil é ainda muito recente, uma vez que a Abolição ocorreu há pouco mais de 130 anos. Desde então, as relações sociais brasileiras ainda mantêm um racismo mascarado no mito da democracia racial.

A atualidade dessa discussão pode se revelar nos debates recentes sobre a defesa das cotas raciais pelos movimentos negros brasileiros. Argumentos meritocráticos são geralmente levantados por pessoas que são contra a implementação das cotas universidades. Uma ilustração desses discursos é, por exemplo, de que “somos todos iguais”.

O Brasil é conhecido por ser uma das nações com maior concentração de renda entre os mais ricos. O país já chegou a ter quase metade da renda nacional nas mãos de 10% das pessoas. A desigualdade social pode ser teorizada e trabalhada de diversas maneiras mas, de fato, ela é uma realidade na sociedade atual.

Dessa forma, compreender o que é o discurso meritocrático significa entender uma das ideologias que fundamentam a sociedade na qual vivemos. Como esse é um ideal que ainda está em circulação nas relações sociais, ela está sujeita a mudanças e transformações.

Referências

Meritocracia e desigualdade – Atahualpa Fernandez; Athus Fernandez;

Classe média, meritocracia e corrupção – Sávio Cavalcante;

A meritocracia aplicada à realidade do setor público brasileiro – um estudo sobre a implantação da gestão de carreira por competências – Ney Nakazato Miyahira;

A desigualdade vista do topo: a concentração de renda entre os ricos no Brasil, 1926-2013;

A desigualdade racial de renda no Brasil: 1976-2006.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [FGV]

Na frase “Apesar de aparentar ser uma ideologia justa, a meritocracia, por causa principalmente de disparidades socioeconômicas, revela-se imparcial, uma vez que só detêm méritos aqueles que são beneficiados com oportunidades para alcançá-los”, pode-se apontar incoerência devido ao emprego inadequado da palavra:

A – “ideologia”
B – “disparidades”
C – “imparcial”
D – “beneficiados”
E – “oportunidades”

Resposta: C

Justificativa: na frase, a palavra “imparcial” está incoerente porque ela deixa explícita a contradição do discurso meritocrático: apesar de exaltar o mérito individual, quem consegue desfrutar desses méritos são apenas alguns indivíduos beneficiados. Dessa forma, a meritocracia é, na verdade, parcial. Em outras palavras, ela “toma partido”, ou seja, favorece uma classe privilegiada.

2. [Unicamp]

Em maio deste ano, uma festa do 3º ano do Ensino Médio de uma escola do Rio Grande do Sul propôs aos alunos que se preparavam para o vestibular uma atividade chamada “Se nada der certo”. O objetivo era “trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular”, e como “lidar melhor com essa fase”. Os alunos compareceram à festa “fantasiados” de faxineiros, garis, domésticas, agricultores, entre outras profissões consideradas de pessoas “fracassadas”. O evento teve repercussão nacional e acirrou o debate sobre a meritocracia. Para Luis Felipe Miguel, professor de ciência política, “o tom de chacota da festa-recreio era óbvio”, e teria sido mais interessante “discutir como se constrói a hierarquia que define algumas ocupações como subalternas e outras como superiores; discutir como alguns podem desprezar os saberes incorporados nas práticas dessas profissões (subalternas apenas porque contam com quem as faça por eles); discutir como o que realmente ‘deu certo’ para eles foi a loteria do nascimento, que, na nossa sociedade, determina a parte do leão das trajetórias individuais”.
(Adaptado de Fernanda Valente, Dia do ’se nada der certo’ acende debate sobre meritocracia e privilégio. Carta Capital, 06/06/2017. Disponível em http://justificando.cartacapital.com.br/2017/06/06/dia-do-se-nada-der-certoacende-debate-sobre-meritocracia-e-privilegio/. Acessado em 08/06/2017.)
As alternativas a seguir reproduzem trechos de uma entrevista do professor Sidney Chalhoub (Unicamp e Harvard) sobre o mito da meritocracia.
(Manuel Alves Filho, A meritocracia é um mito que alimenta as desigualdades, diz Sidney Chalhoub. Jornal da Unicamp, 07/06/2017.)
Assinale aquela que dialoga diretamente com a notícia acima.

A – É preciso promover a inclusão “e fazer com que o conhecimento que essas pessoas trarão à Universidade seja reconhecido e disseminado”.
B – Com a adesão da Unicamp ao sistema de cotas, um “novo contingente de alunos colocará em cheque vários hábitos da universidade”.
C – “As melhores universidades do mundo (que servem de referência) adotam a diversidade no ingresso dos estudantes há bastante tempo”.
D – “O ideal seria que todos aqueles que tivessem condições intelectuais e interesse em entrar na universidade obtivessem uma vaga”.

Resposta: A

Justificativa: apesar de algumas frases das alternativas não serem necessariamente incoerentes com o texto, o enunciado pede que seja relacionada a frase que dialogue diretamente com o texto de apoio. O que o texto deixa explícito é justamente a falta de reconhecimento dos saberes das empregadas domésticas, faxineiros, garis e agricultores que os estudantes foram “fantasiados”. Na festa promovida por esses alunos, esses empregos são tratados como aquilo que “deu errado”, que faltou esforço e “não chegou lá”. O texto defende que seja entendido sociologicamente a razão de se pensar dessa maneira e trazer para perto da universidade essas pessoas discriminadas.

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