Gilberto Freyre

Gilberto Freyre é um dos maiores intelectuais brasileiros e estudou o passado colonial do país. Chegou a conclusão que a miscigenação seria nossa marca original.

Gilberto Freyre é um dos grandes autores do pensamento social brasileiro. Ele se dedicou a pensar o Brasil e a identidade brasileira, e se tornou um marco para uma nova forma de pensar essa temática. O autor foi responsável por dar um significado positivo àquilo que ele cunhou como o caráter essencialmente brasileiro: a miscigenação.

Até então, os intelectuais que pensavam a nação viam a população miscigenada como um defeito, um erro social. Atualmente as ideias de Freyre são revisadas e criticadas, mas continuam relevantes para a história de como o Brasil foi pensado. Além disso, o pensamento de Freyre ressoa na nossa sociedade até hoje. A seguir, autor e obra serão apresentados.

Biografia: quem foi Gilberto Freyre

Fotografia de Gilberto Freyre
Fotografia de Gilberto Freyre

Gilberto Freyre nasceu no ano de 1900, em Recife. Ele foi filho de uma família abastada e erudita. Seu pai era um intelectual e humanista bastante conhecido em sua época e teve influencia para que o autor se interessasse logo cedo pela literatura, pelas artes e pelas ciências.

Freyre obteve bacharel em Ciências e Letras e estudou muito tempo nos Estados Unidos e na Europa. Ele teve contato com a produção científica em sociologia e antropologia mais proeminentes de sua época, entre a década de 1920 e 1930. Entretanto, seus estudos sempre foram variados e interdisciplinares, passando também pela geografia e a história.

Além de sua produção acadêmica relevante, Freyre também escreveu em jornais para a imprensa. Ele enviava seus textos mesmo quando estava nos Estados Unidos, na década de 1920. O engajamento do autor no jornalismo se acentuou na década de 1930, quando teve de ser exilado por conta do governo de Getúlio Vargas.

Gilberto Freyre foi um dos opositores do Estado Novo de Vargas, incluindo sua família que acabou por ser perseguida no período. Ele também foi influente politicamente e, no momento pós-democratização, se elegeu como deputado. Entretanto, ficou conhecido também por possuir posições políticas contraditórias.

Freyre viveu o seu século com bastante experiência intelectual internacionalmente e com notório reconhecimento. Morreu aos 87 anos, em 18 de julho de 1987. Seu falecimento ocorreu no hospital, já que estava debilitado por problemas de saúde.

Carreira de Gilberto Freyre

A carreira acadêmica, política e até jornalística de Gilberto Freyre mostram o quanto foi multifacetada a sua trajetória. Considerado o maior intelectual brasileiro, Freyre impactou diversos setores sociais porque se preocupou também em comunicar bem as suas ideias.

Desse modo, o autor não se isentou de polêmicas. Frequentemente se envolvia com os assuntos de seu tempo. Todavia, era difícil retirar de Freyre um posicionamento único ou linear a respeito dessas temáticas. Sua trajetória poderá revelar um pouco desse aspecto da vida do autor.

Carreira acadêmica e pensamento

Gilberto Freyre estudou nos Estados Unidos nas universidades de Baylor e Columbia, onde fez graduação e depois mestrado. Estudou, lecionou e desenvolveu atividades também em outras universidades norte-americanas e europeias. Sua dissertação de mestrado, Vida Social no Brasil em Meados do Século XIX, foi um berço para a sua posterior grande obra, Casa Grande & Senzala, publicada em 1933.

Um tema frequente em seu trabalho é a cultura e a sua relação com as personalidades individuais. Isso mostra a importância que a Escola de Personalidade e Cultura norte-americana desempenhou em Freyre. Essa linha teórica tinha o antropólogo Franz Boas como representante e outros nomes como Margaret Mead e Ruth Benedict.

Apesar de ser conhecido por pensar a identidade brasileira, Gilberto Freyre também se interessou por outras culturas, como a inglesa e a italiana. O autor foi responsável por valorizar a cultura portuguesa e a influência desse povo na formação brasileira. No período de política arianista do nazismo, os portugueses eram considerados também uma raça impura.

No Brasil, foi professor em cursos temporários na Faculdade de Direito de Recife e fez parte da Universidade do Distrito Federal do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, deu aula
de antropologia e sociologia. Ainda no país, foi pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco em Pernambuco.

Carreira política

Em 1926, Freyre aceitou o convite de auxiliar o governador de Pernambuco Estácio Coimbra, o que daria uma interrupção em suas produções intelectuais. Entretanto, em 1930, o governo de Getúlio Vargas, na tentativa de destituir a “Velha República”, acabou fazendo com que ele tivesse de deixar temporariamente sua atuação política.

Em 1946 até 1950, foi deputado pelo partido União Democrática Nacional (UDN), no período pós-democratização. Foi nessa época que Freyre conseguiu instituir a Fundação Joaquim Nabuco, onde se dedicou a produção de pesquisas nas ciências sociais.

Apesar de ser influente, o próprio Gilberto Freyre comenta que, em muitos casos, preferiu se posicionar “em cima do muro”. Ainda, foi contraditório em alguns aspectos. O autor foi um grande opositor do governo de Getúlio Vargas, criticando-o por seu caráter autoritário e fascista, mas não emitiu opiniões de oposição ao regime militar de 1964.

Quanto ao espectro político da esquerda, recebeu inúmeras críticas. Isso porque Freyre contrariava o Partido Comunista Brasileiro (PCB), bem como se opunha à União Soviética e criticava algumas posições de esquerda. Por outro lado, dialogava com autores e também com o pensamento marxista.

Um posicionamento forte de Freyre foi contra o nazismo. Isso tem relação com a sua produção teórica a respeito da miscigenação, que ele considerava um fator positivo – em particular no caso do Brasil. O autor foi um opositor declarado do arianismo.

Carreira jornalística

Logo em seus tempos de colegial, Gilberto Freyre se interessou por produções jornalísticas. Ao longo da vida do autor, o jornal foi um dos meios principais de divulgação de suas ideias e também uma forma de se estabelecer enquanto um intelectual.

Freyre era crítico do sensacionalismo que alguns jornais assumiam para captar a atenção dos leitores. Ele aprendeu também sobre jornalismo quando, aos 18 anos, foi morar nos Estados Unidos para estudar. O tipo de jornalismo norte-americano influenciou Freyre, que tentou reproduzir esse modelo no Brasil.

Em 1926, Gilberto Freyre se tornou chefe da redação do Diário de Pernambuco, o jornal mais antigo da América Latina. Ele já publicava no jornal antes de exercer esse cargo e continuou por mais 69 anos.

Na ocasião do governo de Getúlio Vargas, ao qual Freyre era opositor, o Diário de Pernambuco acabou servindo para suas manifestações e críticas. Essa repercussão acabou fazendo com que ele fosse exilado e até preso. Desse modo, as vidas acadêmica, política e jornalística de Freyre sempre estiveram entrelaçadas.

Essa carreira multifacetada de Gilberto Freyre mostra o quão engajado ele foi com as questões de seu tempo. Estudando, participando e se comunicando em relação a essas temáticas sensíveis à sua época, Freyre acabou por se tornar um dos mais conhecidos intelectuais do Brasil.

Casa Grande e Senzala

Fotografia do Monumento às Três Raças.
Monumento às Três Raças

Publicado em 1933, Casa Grande e Senzala é a principal obra de Gilberto Freyre e também um dos livros mais conhecidos no pensamento social brasileiro. A questão tratada por Freyre nessa obra é decorrente de um debate já consolidado em seu tempo: quem é o brasileiro? Como se deu a sua formação?

Até então, os pensadores do Brasil possuíam uma visão bastante negativa da constituição da nação. Isso porque eles viam uma população mestiça, formada pela mistura de portugueses, indígenas e africanos, e consideravam impossível surgir uma identidade nacional própria. Na verdade, eles viam as “raças” não-brancas como uma degeneração e motivo de decadência.

Gilberto Freyre era influenciado por Franz Boas e sua antropologia culturalista. Boas era um crítico do nazismo, da ideologia arianista e de uma noção biologicista de “raça”. Ao invés disso, o antropólogo trouxe com força o conceito de cultura para pensar como cada povo possui seu próprio modo de ser.

Isso significa que Freyre negou a noção hierárquica entre “raças” dos intelectuais da época. O autor defendia que todos os povos formadores do Brasil – os portugueses, os indígenas e os africanos – contribuíram com a formação da identidade nacional. Portanto, a miscigenação não era negativa e nem degenerava a nação, mas era o próprio centro definidor do Brasil.

Juntamente com essa ideia principal, Freyre trouxe relatos e registros extensos sobre a vida colonial no Brasil. O estudo é de fato emblemático e até hoje é utilizado para pesquisar e formular teorias interpretativas sobre a história brasileira.

No entanto, apesar de negar a noção de “raça”, Gilberto Freyre é criticado por produzir uma ideologia racista sobre a sociedade brasileira. Isso porque descreve as relações escravistas que existiam entre os senhores brancos e os escravos de maneira harmoniosa e pacífica. O autor se tornou uma das figuras que instituiu o mito da “democracia racial” no Brasil, como se aqui não houvesse racismo.

Alguns autores defendem que ele não teria negado a existência do racismo no Brasil, entretanto, parece inegável que a ideia de “democracia racial” é frequentemente ligada a Freyre, e esse pensamento é utilizado para mascarar as relações de violência existentes no país.

De todo modo, Gilberto Freyre foi responsável por trazer uma nova forma de pensar o Brasil. De maneira original, teorizou a respeito de uma maneira de ver a identidade brasileira positivamente. Ele foi capaz de atenuar o olhar racista e etnocêntrico que via a miscigenação como um fator degradante para a nação.

Principais obras de Gilberto Freyre

Apesar de ser vasta a obra e os interesses de Gilberto Freyre, a linha que une seus estudos é a identidade nacional brasileira e a pesquisa sobre a história do Brasil. Seus livros são compostos desde os tradicionais ensaios até obras de ficção. Abaixo foram listadas alguns deles.

  • Sobrados e Mucambos (1936): nessa obra Freyre trata da decadência progressiva da figura patriarcal no contexto rural e de desenvolvimento urbano.
  • Nordeste (1937): o autor descreve essa região brasileira em um ensaio. Nessa obra fica evidente seu caráter regionalista;
  • Continente e Ilha (1943): esse livro trata de uma conferência dada por Gilberto Freyre no estado do Rio Grande do Sul;
  • Ordem e Progresso (1959): ainda dedicado a explanar o Brasil, Freyre trata do período de transição da Monarquia para a República;
  • Dona Sinhá e Filho Padre (1964): essa obra é uma ficção escrita por Gilberto Freyre já em idade avançada. Ela mostra o caráter multifacetado dos escritos do autor.

Mesmo pensando a cultura brasileira de maneira múltipla, Gilberto Freyre deu importância para a miscigenação de povos que formou o Brasil. Conforme o autor, esse é um aspecto original da identidade nacional. Essa ideia freyreana tem influências até hoje.

10 frases de Gilberto Freyre

A obra de Gilberto Freyre é vasta, mas suas ideias principais podem se repetir como uma forma de divulgar e fixar seu pensamento. Abaixo, há uma lista com 10 frases do autor que podem elucidar algumas de suas principais ideias.

  1. “A verdade é que foi no extremo Nordeste e no Recôncavo Baiano que primeiro se fixaram e tomaram fisionomia brasileira os traços, os valores, as tradições portuguesas que junto com as africanas e as indígenas constituiriam aquele Brasil profundo, que hoje se sente ser o mais brasileiro.”
  2. “O mais brasileiro (…) é um homem do povo, semelhante ao polinésio, feito de três sangues, em outras terras tão inimigos – o do branco, o do índio e o do negro.”
  3. “Um negro adaptado como nenhum à lavoura do açúcar e ao clima tropical.”
  4. “Um português também predisposto à sedentariedade da agricultura.”
  5. “Um índio que ficou aqui mais no ventre e nos peitos da cabocla gorda e amorosa do que nas mãos e nos pés do homem arisco e inquieto.”
  6. “Pelo tipo tradicional de casa-grande e de sobrado de azulejo e pelo de casa de palha ou de mucambo (…) constituem material de primeira ordem e uma riqueza de sugestões e de inspirações para uma arquitetura verdadeiramente brasileira, ou, pelo menos, regional.”
  7. “Pode-se atribuir à monocultura da cana a formação (…) do tipo mais puro de aristocrata brasileiro: o senhor de engenho.”
  8. “Parece-nos o fato, ligado naturalmente à circunstância econômica da nossa formação patriarcal, da mulher ser tantas vezes no Brasil vítima inerme do domínio ou do abuso do homem; criatura reprimida sexual e socialmente dentro da sombra do pai ou do marido.”
  9. “A nossa tradição revolucionária, liberal, demagógica, é antes aparente e limitada a focos de fácil profilaxia política: no íntimo, o que o grosso do que se pode chamar “povo brasileiro” ainda goza é a pressão sobre ele de um governo másculo e corajosamente autocrático.”
  10. “A tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo do mando, disfarçado em “princípio de Autoridade” ou “defesa da Ordem”.”

É possível notar que o autor sempre se dedicou a estudar a cultura brasileira e o que se trata “ser brasileiro”. Para ele, a cultura é o grande fator que determina essas características, e não um gene, uma “biologia”, ou mesmo o clima, como era recorrente de se pensar na época.

Gilberto Freyre na cultura

Freyre foi reconhecido como um dos maiores intelectuais do Brasil, por isso, suas ideias influenciaram o que as pessoas pensam a respeito do país. Algumas produções culturais e artísticas de outros autores podem demonstrar isso.

  • Casa Grande & Senzala (1933-1973) (1974, Geraldo Sarno): pequeno filme de quase 15 minutos que trata da influência da grande obra de Gilberto Freyre até a década de 1970.
  • Casa Grande (2015, Fellipe Gamarano Barbosa): filme que, com evidente inspiração na obra de Gilberto Freyre, trata da mesma temática do patriarcado e da dominação do senhor de engenho, mas em moldes atuais.
  • Guia de Pernambuco (2015, Flávio Costa): com parceria da Fundação Gilberto Freyre, o livro do fotógrafo Flávio Costa é inspirado no autor para mostrar o que tem de melhor em Pernambuco.

Para além desses exemplos explícitos de como Gilberto Freyre influenciou a arte e a cultura, é possível afirmar que as ideias do autor afetaram indiretamente muitas produções. A visão do Brasil como um país miscigenado é certamente uma influência de Freyre.

Entenda mais sobre Gilberto Freyre

Confira uma lista de materiais audiovisuais que falam mais sobre o autor e o impacto de suas principais ideias na sociedade brasileira.

Gilberto Freyre e Casa Grande & Senzala

Nesse vídeo, é explicado mais sobre o Gilberto Freyre e sua obra mais conhecida, Casa Grande & Senzala. Esse livro é muito importante para entender o que é o Brasil.

Sobre a democracia racial

O canal Sociologia Animada trata de uma das ideias atribuídas a Gilberto Freyre, que é a democracia racial. De que maneira esse assunto é tratado atualmente?

Democracia racial e o movimento negro hoje

Gilberto Freyre é um autor que representa a difusão da ideia de democracia racial no Brasil. Esse pensamento tem consequências políticas atualmente para o movimento negro. O vídeo discute esse aspecto do debate.

É interessante pensar como a luta racial é uma das questões centrais para pensar o Brasil até os dias de hoje. Desse modo, Gilberto Freyre continua um autor atual no debate. É necessário conhecê-lo e compreender as críticas à sua obra para adentrar nessas discussões.

Freyre continua sendo uma das figuras intelectuais mais importantes no Brasil. É importante considerar que ele é reconhecido também internacionalmente, sendo uma fonte rica para pensar a cultura brasileira. Dessa forma, Freyre é um autor imprescindível de ser estudado na sociologia e na antropologia.

Referências

Gilberto Freyre. Trajetória e singularidade – Gilberto Velho;

Gilberto Freyre, uma biografia intelectual – Vamireh Chacon;

Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos – Afrânio Garcia;

Mídia: fonte & palanque do pensamento culturalista de Gilberto Freyre – Edson Fernando Dalmonte;

Casa Grande & Senzala – Gilberto Freyre;

Nordeste – Gilberto Freyre.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [ENEM]

“Formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio – e mais tarde de negro – na composição. Sociedade que se desenvolveria defendida menos pela consciência de raça, do que pelo exclusivismo religioso desdobrado em sistema de profilaxia social e política. Menos pela ação oficial do que pelo braço e pela espada do particular. Mas tudo isso subordinado ao espírito político e de realismo econômico e jurídico que aqui, como em Portugal, foi desde o primeiro século elemento decisivo de formação nacional; sendo que entre nós através das grandes famílias proprietárias e autônomas; senhores de engenho com altar e capelão dentro de casa e índios de arco e flecha ou negros armados de arcabuzes às suas ordens”.
De acordo com a abordagem de Gilberto Freyre sobre a formação da sociedade brasileira, é correto afirmar que:

A) a colonização na América tropical era obra, sobretudo, da iniciativa particular.
B) o caráter da colonização portuguesa no Brasil era exclusivamente mercantil.
C) a constituição da população brasileira esteve isenta de mestiçagem racial e cultural.
D) a Metrópole ditava as regras e governava as terras brasileiras com punhos de ferro.
E) os engenhos constituíam um sistema econômico e político, mas sem implicações sociais.

Resposta: A
Justificativa: para Freyre, a colonização foi pacífica, de ordem particular e não-violenta. A colonização portuguesa não foi de caráter exclusivamente mercantil: os portugueses participaram da constituição da identidade brasileira por meio da miscigenação, tendo um grande peso social e cultural.

2. [UEM]

A nação, a nacionalidade e a identidade nacional são construções sócio-históricas, portanto são resultado da ação de vários agentes sociais. O intelectual é um dos agentes sociais envolvidos na construção das ideias de nação, de nacionalidade e de identidade nacional. Para o caso brasileiro, no que diz respeito à criação da identidade nacional, um intelectual central foi Gilberto Freyre (1900-1987). Em suas obras, Freyre sistematizou, divulgou e ajudou a sedimentar a ideia do Brasil como país mestiço, atrelando a identidade nacional brasileira à miscigenação, à mestiçagem. Sobre a identidade nacional brasileira assentada na miscigenação e na mestiçagem, é correto afirmar:

01) A identidade nacional brasileira assentada nos ideais da mestiçagem e da miscigenação busca conciliar discursivamente uma sociedade altamente estratificada onde o racismo é um operador social importante.
02) A construção da identidade nacional brasileira favoreceu a expropriação do patrimônio cultural da população negra, uma vez que elementos da cultura negra foram transformados em cultura nacional, situação que colaborou para fortalecer a ideia da ausência de uma cultura da população negra no Brasil.
04) A identidade nacional alicerçada nos ideais da miscigenação e da mestiçagem é algo que foi e ainda é utilizado para encobrir o racismo existente no Brasil.
08) A construção da identidade nacional em torno do ideal da miscigenação e da mestiçagem favoreceu o desenvolvimento do mito da democracia racial e da ausência de racismo no Brasil.
16) A identidade nacional calcada nos ideais da miscigenação e da mestiçagem favoreceu o surgimento de conflito racial explícito no Brasil.

Resposta: 15 (01+02+04+08)

Justificativa: defender que a marca da identidade nacional brasileira é a miscigenação, como faz Gilberto Freyre, serviu para propagar o discurso da “democracia racial”, fazendo com que se mascarasse ou harmonizasse o racismo existente na sociedade. Esse ideal de brasilidade miscigenada acabou absorvendo os elementos de uma cultura negra sem, no entanto, fortalecer essa própria cultura. Esse é um aspecto do racismo existente no Brasil, que ocorre “por debaixo dos panos”, de maneira aparentemente não-violenta ou amistosa.

3. [ENEM]

A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação.
FREYRE, G. Casa-grande & senzala. Rio de Janeiro: Record, 1999.
A temática discutida é muito presente na obra de Gilberto Freyre, e a explicação para essa recorrência está no empenho do autor em:

A) defender os aspectos positivos da mistura racial.
B) buscar as causas históricas do atraso social.
C) destacar a violência étnica da exploração colonial.
D) valorizar a dinâmica inata da democracia política.
E) descrever as debilidades fundamentais da colonização portuguesa.

Resposta: A

Justificativa: Gilberto Freyre foi original à sua época por conseguir defender teoricamente o caráter positivo da miscigenação. Para ele, esse processo de mistura não é sinal de atraso ou degeneração e ocorreu de maneira não-violenta.

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