Florestan Fernandes

Florestan Fernandes produziu teorias capazes de orientar as ações políticas. Ainda hoje, é um dos sociólogos brasileiros mais relevantes.

Florestan Fernandes foi um sociólogo brasileiro, atualmente considerado um dos mais importantes na Sociologia do país. Ele vem de origem humilde, e acabou se tornando um importante professor da Universidade de São Paulo. Mesmo depois de sua aposentadoria compulsória, continuou estudando e dando aulas.

Além disso, Fernandes foi marcante também na política brasileira. Foi deputado federal duas vezes e atuou em diversos movimentos sociais. O autor sempre teve a preocupação de guiar suas ações políticas por meio da teoria para realizar mudanças sociais efetivas.

Biografia de Florestan Fernandes

Florestan Fernandes em conferência no Museu de Belas Artes (1964)

Florestan Fernandes (1920-1995) é um dos sociólogos mais importantes na Sociologia brasileira, e é considerado o criador da Sociologia Crítica no país. Ele foi capaz de aplicar, reinterpretar e criticar as teorias sociológicas clássicas para explicar a sociedade brasileira.

O sociólogo nasceu em São Paulo. Foi criado pela sua mãe, Maria Fernandes, uma imigrante portuguesa, e nunca conheceu o pai. Ele precisou abandonar a escola quando criança para trabalhar como auxiliar de alfaiate, de engraxate, e, por fim, de garçom.

Quando trabalhava de garçom em um restaurante muito frequentado por intelectuais aos 16 anos, Florestan Fernandes já era um leitor assíduo. E, por influência de um jornalista, foi incentivado a voltar a estudar.

Em 1941, quando finalmente ia entrar em uma universidade, sonhava em se tornar um químico. Mas, como ainda precisava trabalhar, acabou optando por um curso de meio período: Ciências Sociais, na Universidade de São Paulo. Ele era o único aluno pobre entre as 6 pessoas selecionadas para ingressar no curso.

Fernandes não demorou em se interessar em estudar temáticas relacionadas à maioria desfavorecida, como as pessoas pobres, indígenas e negras. Um de seus primeiros trabalhos, “Tiago Marques Aipobureu: um bororo marginal” (1945), chamou bastante a atenção de intelectuais pela sua qualidade.

Conforme ele amadureceu como intelectual, passou a se engajar mais nas questões que dizem respeito às mudanças sociais. Em 1981, comentou: “Eu não posso criar a história do meu país, eu posso quando muito participar dela.” E, de fato, participou.

Para citar alguns exemplos, no final da década de 1960, se engajou na Campanha pela Escola Pública. Participou de editoriais e de revistas. Em 1986 se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) para participar da elaboração da Constituinte. Foi eleito, assim, duas vezes como deputado federal.

Florestan Fernandes foi professor de Sociologia na USP por mais de duas décadas, sendo aposentado forçosamente em 1969 no período da ditadura militar. Assim, lecionou até 1972 na Universidade de Toronto, em 1977 na Yale University e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Portanto, a relação entre o pensamento e a ação, ou entre a teoria e a práxis, é bastante evidente na vida e na obra de Florestan Fernandes. Esse engajamento político orientado pela teoria é marco de sua Sociologia crítica que, por sua vez, se conecta com suas experiências. Nas palavras do próprio autor, em 1994, um ano antes de seu falecimento:

“Eu nunca teria sido o sociólogo em que me converti sem o meu passado e a socialização pré e extraescolar que recebi, através de duras lições da vida. Portanto, […] afirmo que iniciei minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto.”

O que Florestan Fernandes defendia?

Florestan Fernandes pesquisou a realidade social brasileira. A partir das teorias construídas nesses estudos, o sociólogo pensou em formas de ações políticas para resolver os problemas no Brasil. Para construir suas teorias, Florestan Fernandes teve de perpassar por outras disciplinas, como a História, a Antropologia e a Economia.

Esses fatores fazem com que a Sociologia crítica de Florestan Fernandes seja importante e levada adiante nas pesquisas sociológicas brasileiras. A seguir, você encontra um resumo dos principais aspectos das teorias do autor e, consequentemente, o que ele defendia – já que essas duas coisas não estão separadas, para Florestan Fernandes.

“Democracia racial”

Florestan Fernandes realiza uma crítica da hipótese de Gilberto Freyre. Para Freyre, no Brasil existe uma democracia racial: o caráter nacional brasileiro teria sido formado, de maneira harmoniosa, na mistura dos modos de ser de portugueses, de africanos e de indígenas.

Assim, para Gilberto Freyre, no Brasil não haveria um racismo como nos Estados Unidos segregado. Ao contrário, aqui imperaria uma “democracia racial”. Florestan Fernandes demonstrou que essa hipótese, na verdade, é um mito. Em outras palavras, ela não se comprova na realidade social brasileira.

Após o fim da escravidão em 1888, criou-se uma ideia de que as oportunidades de emprego e de enriquecimento finalmente eram para todas as pessoas. Supostamente, não haveria mais impedimentos para pessoas negras adentrarem no mercado de trabalho como os brancos.

Segundo Florestan Fernandes, o que aconteceu de verdade é que não houve qualquer tentativa, tanto do Estado como da cultura escravagista que existia, de integração da população negra. Após o fim da escravidão, as pessoas negras acabaram exercendo trabalhos parecidos com os que já realizavam. Além disso, continuaram vivendo sem moradia e oportunidades sociais adequadas.

Portanto, o fim da escravidão acabou por ser mais uma mudança imposta por brancos para os negros se adaptarem. As vidas dessas pessoas continuaram em desvantagem socialmente mesmo depois de 1888 e geralmente foram obrigadas a viverem em condições de miséria.

Em 1950, o mito da democracia racial ainda era considerado verdadeiro. Foi então iniciada uma pesquisa, pelo Projeto Unesco, para mostrar ao mundo essa integração de raças bem-sucedida no Brasil. Assim, Florestan Fernandes foi um dos pesquisadores do projeto, e os resultados dessa pesquisa acabaram provando uma conclusão contrária a essa hipótese inicial.

O sociólogo ainda relaciona esses resultados com as questões de classe. Isso porque a crença na “democracia racial” e a negligência dos problemas raciais no Brasil são feitas fortemente pela burguesia em ascendência no país. Nas palavras do autor, em 1995:

“Jamais contaremos com uma democracia efetiva se não […] eliminarmos [o racismo]. O negro ainda constitui o ponto central de referência de nossos atrasos e avanços históricos, a esperança maior na luta dos oprimidos pela criação de uma sociedade nova.”

Educação

Florestan Fernandes explicou como o acesso à escola no Brasil é difícil para as pessoas pobres. Portanto, alguém dessa maioria desfavorecida no país conseguir estudar pode ser considerado um ato político.

Em 1960, uma série de movimentos sociais eclodiam no Brasil. Dentre elas, o movimento Em Defesa da Escola Pública, contou com o engajamento ativo de Florestan Fernandes. Ele argumentou a favor do acesso à educação para todas as pessoas. Isso fazia parte de sua visão sobre as direções que o Brasil deveria tomar para alcançar o desenvolvimento e a autonomia nacional.

Para Fernandes, os comportamentos democráticos, o pensamento racional e crítico e uma formação técnica e científica deveriam ser estimulados por uma educação pública. Esses são elementos necessários para uma sociedade mais igualitária no Brasil, que possui uma democracia “estranha”, considerada indesejável pelos ricos e conservadores.

Assim, nessa educação pública, é necessário também que exista uma relação democrática entre os professores e os alunos. Isso porque, para o autor, os professores que foram educados em uma cultura e política autoritárias, tenderiam a ser antidemocráticos com os alunos.

Portanto, escola deveria ser um lugar que estimula a criatividade, a racionalidade e uma convivência democrática. Uma postura autoritária está ligada, ao contrário, ao projeto político de uma burguesia. Assim, essa classe não quer abrir mão de sua condição de dominância no país e, ao mesmo tempo, de submissão às grandes potências mundiais.

A questão delicada que Florestan Fernandes enfrentou na defesa da escola pública foi o destino de verbas públicas para a educação. Em 1958, o deputado Carlos Lacerda havia proposto um projeto que encaminhava os interesses públicos para escolas privadas.

Contra essa medida, o sociólogo defendeu a importância de as verbas públicas se destinarem, exclusivamente, à educação pública. Nas instituições privadas a educação poderia acabar se transformando em mercadoria, visando apenas o enriquecimento dos donos dessas empresas.

Conforme o autor, a escola pública possui critérios mais exigentes de contratação de professores e oferece uma educação gratuita aos mais pobres. Todavia, o sistema escolar particular não favorece a integração social da maioria desfavorecida.

Logo, a educação que Florestan Fernandes defende está intimamente ligada com suas interpretações sobre as desigualdades sociais vigentes na sociedade brasileira.

Desigualdade social

Nas sociedades dominantes – como as europeias – ocorreram revoluções burguesas. E nesse processo de ascensão no sistema capitalista conseguiram, em determinada medida, dialogar com interesses dos mais pobres.

Entretanto, em países periféricos a situação é diferente. No Brasil, por exemplo, a burguesia que emergiu não foi revolucionária como no caso europeu. A “revolução burguesa” que ocorreu no caso brasileiro visou, ao contrário, apenas absorver o modelo capitalista de exploração já existente.

Isso aconteceu porque os países periféricos vivem em situação de uma dependência econômica em relação às nações dominantes. Nessa dependência entram ainda fatores culturais e políticos.

E o Brasil é um país anteriormente colonizado. Portanto, sua transição para um modelo capitalista de sociedade não poderia ocorrer da mesma maneira que nações europeias.

O modo colonial de organização social, nesse processo de absorção do capitalismo, pode ser substituído completamente ou parcialmente. No caso brasileiro, aconteceu apenas a absorção parcial. Isso gerou um capitalismo dependente e manteve as ordens hierárquicas internas arcaicas.

É por isso que, se a burguesia europeia foi revolucionária, a burguesia brasileira foi conservadora. Seu interesse não foi um rompimento com a ordem antiga. Assim, o Brasil acaba não avançando na direção de se tornar uma nação autônoma. Tampouco é possível um desenvolvimento social verdadeiro, porque o país está em um capitalismo dependente.

Portanto, a sociedade brasileira enfrenta uma dupla dificuldade. Para reduzir as desigualdades sociais e se tornar uma nação autônoma, ela precisa enfrentar duas pressões. Uma é a da burguesia chamada “autocrática” no Brasil. A outra pressão vem dos países dominantes, que visam manter as desigualdades.

Assim, as desigualdades sociais no Brasil têm a ver com o nosso passado colonial e escravista. Esses fatores, dentre outros, continuam a exercer influência sobre o nosso presente. Uma das formas de superar essas barreiras, para Florestan Fernandes, é incentivar uma educação pública e democrática.

Fundação Florestan Fernandes

Fundação Florestan Fernandes

A Fundação Centro de Educação do Trabalhador Professor Florestan Fernandes foi fundada em 1996 e está localizada em Diadema. Lá são oferecidos cursos profissionalizantes para a população no âmbito municipal. A instituição não tem fins lucrativos, e tem o objetivo de oferecer uma formação para entrada ou a reinserção no mercado de trabalho.

A fundação Florestan se concentra no oferecimento de cursos profissionalizantes. Assim, ela é pautada na garantia de direitos e cidadania, inspirada no engajamento político de Florestan Fernandes – e de outros teóricos, como Paulo Freire. Os cursos são gratuitos.

Ao longo dos anos, a instituição vem mudando de perspectivas e se concentra também em fomentar atividades culturais. Esses objetivos de formação profissional e social da população está alinhada com alguns posicionamentos de Florestan Fernandes, particularmente os defendidos por ele no início da década de 1960.

Defendendo a escola pública como um meio para o desenvolvimento industrial e tecnológico, o sociólogo dialoga com pontos presentes na agenda liberal. Incentivando comportamentos democráticos e o desenvolvimento, Florestan acreditava que essas pautas podiam também entrar em harmonia com os projetos de uma esquerda.

Assim, para acontecer um desenvolvimento real no Brasil em direção a uma autonomia nacional, Fernandes defendeu que todas as pessoas deveriam ter o direito de uma educação técnica e científica. Além disso, deve-se desenvolver habilidades de pensar e refletir racionalmente, que embasariam tais mudanças.

Principais obras de Florestan Fernandes

Florestan Fernandes chamou a atenção de seus colegas intelectuais desde cedo pela sua dedicação e a relevância de suas reflexões. Assim, suas obras passam pelas questões indígenas, o racismo contra a população negra e as classes sociais. Portanto, o autor faz uma extensa interpretação da realidade social do Brasil.

Algumas das obras mais conhecidas e que demonstram essa trajetória intelectual de Florestan Fernandes estão listadas a seguir.

  • A função social da guerra na sociedade Tupinambá (1951)
  • Folclore e mudança social na cidade de São Paulo (1961)
  • A integração do negro na sociedade de classes (1965)
  • Educação e sociedade no Brasil (1966)
  • Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina (1973)
  • A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica (1975)
  • Circuito fechado: quatro ensaios sobre o “poder institucional” (1976)
  • Poder e contrapoder na América Latina (1981)

Essas obras e teorias são um resumo de todo o universo de estudo realizado por Florestan Fernandes. Suas ideias podem ser aplicadas, renovadas ou mesmo criticadas ainda hoje. Críticas, inclusive, que o próprio Florestan incentivava a serem feitas. Portanto, este sociólogo continua sendo bastante relevante para a Sociologia brasileira.

Referências

Florestan Fernandes: O Mestre – Documentário de Roberto Stefanelli

A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica – Florestan Fernandes

Entre a academia e o partido: a obra de Florestan Fernandes (1969/1983) – Lidiane Soares Rodrigues

Florestan Fernandes e o capitalismo dependente: elementos para a interpretação do Brasil – Giuliano Contento de Oliveira e Daniel Arias Vazquez.

Florestan Fernandes e Tiago Marques Aipobureu. Biografia e sociedade – Marcos César Alvarez

A educação segundo Florestan Fernandes – Iziane Silvestre Nobre e Lucíola Andrade Maia.

Florestan Fernandes, história e histórias – Depoimento a Alfredo Bosi, Carlos Guilherme Mota e Gabriel Cohn.

Florestan Fernandes e o miro da democracia racial brasileira – Marcos Marques de Oliveira.

Democracia e educação: Florestan Fernandes em defesa da escola pública – Julio Hideyshi Okumura.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UEMA]

Leia o fragmento abaixo.
“[…] Se a supressão do nexo colonial não se refletiu na condição de escravo nem afetou a natureza da escravidão mercantil, ela alterou a situação econômica do senhor que deixou de sofrer o peso da ‘espoliação colonial’ e passou a contar, por conseguinte, com todas as vantagens da ‘espoliação escravista’ que não fossem absorvidas diretamente pelos mecanismos secularizados do comércio internacional.”
Baseando-se no fragmento de Florestan Fernandes, pode-se afirmar que a independência do Brasil
a) Dificultou o fortalecimento da economia nacional.
b) Fortaleceu o setor econômico escravista nacional.
c) Extinguiu o tráfico de pessoas escravizadas no país.
d) Rompeu com a estrutura econômica baseada na escravidão.
e) Aumentou a dependência brasileira aos interesses portugueses.

Resposta: B
Justificativa: A independência acabou fortalecendo os interesses dos senhores brancos e forçando a população negra, que não teve nenhuma condição de integração na sociedade – que “no papel” não tinha mais escravidão –, a se adaptar a um novo sistema em que continuou a ser explorada.

2. [UnB]

Em “O negro no mundo dos brancos”, Florestan Fernandes defende que uma das maneiras de se compreender a democracia racial no Brasil é por meio do entendimento do solapamento e da neutralização dos movimentos sociais voltados para a democratização das relações raciais e para o fortalecimento das técnicas de acefalia dos estratos raciais heteronômicos ou dependentes. Considerando-se essa concepção e as ideias do referido autor, é correto afirmar que a democracia racial no Brasil é
a) incoerente, já que os princípios que a orientam se assentam na divisão de classes sociais, e não de raças.
b) inconsistente, dado que os indivíduos em condição de exceção ajudam a confirmar a regra e elaboram os interesses da coletividade negra.
c) falsa, uma vez que negros e mulatos são socializados para tolerar, aceitar e endossar as formas existentes de desigualdade racial.
d) disforme, pois, conforme o contexto regional, há maior ou menor grau de democracia e aceitação do negro na sociedade dos brancos.
e) inexistente, visto que há a invisibilidade social do branco e o destaque dos papeis sociais das minorias, notadamente, dos negros.

Resposta: C
Justificativa: A “democracia racial” no Brasil não é um mito porque as questões de classe são mais reais, ou porque existem exceções na sociedade, nem que supostamente haveria ou “grau” de democracia racial variável regionalmente. De fato, ela é falsa e ela é mascarada por meio de uma socialização que faz os indivíduos se acomodarem ou reproduzirem os ideais racistas de sua sociedade.

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