Fisiocracia

A fisiocracia é considerada a precursora do pensamento econômico científico e se baseou nas leis naturais que guiavam a sociedade e a economia.

A fisiocracia surgiu na França do século XVIII, em meio a uma crise econômica e no surgimento de ideias inovadoras. A inspiração da fisiocracia advém do Iluminismo, ou seja, da ideia de que o homem é capaz de desvendar os mistérios da natureza por meio da razão. Saía-se, assim, do domínio das tradições e dos sistemas baseados puramente na ação divina.

Essas foram as mesmas ideias que também inspiraram a Revolução Francesa. No entanto, até aquele momento, a fisiocracia procurava solucionar as crises sem alterar a estrutura monárquica. Conheça mais sobre essa escola de pensamento econômico.

O que é fisiocracia?

Fisiocracia significa governo (cracia) da natureza (fisis). Ela foi a primeira vertente do pensamento econômico científico, surgindo na França do século XVIII. Sua ideia principal era de que a economia e a sociedade são regidas por leis naturais que levam a humanidade a um estado de harmonia.

Assim, se o cenário social e econômico se mostrava em crise, era porque seus governantes não interpretaram corretamente as leis naturais e estavam agindo em desconformidade com ela. Além disso, a verdadeira fonte de valor e de riqueza estava na agricultura, a indústria era um empreendimento em si mesmo estéril.

François Quesnay foi o líder do grupo de fisiocratas seguidores de suas ideias. Em 1758, publicou o Quadro econômico, que ficaria conhecido como o grande marco do pensamento fisiocrata. Para Quesnay, dinheiro não é riqueza porque, em si mesmo, ele é estéril. Ao contrário, a verdadeira riqueza estava na agricultura, que produzia bens renováveis e que não causavam empobrecimento

Contexto histórico da fisiocracia

A fisiocracia surgiu em um momento de crise econômica e política da monarquia na França do século XVIII, antecedendo também a Revolução Francesa. François Quesnay era o médico da realeza e começou a produzir uma teoria sobre a economia, trazendo uma possível solução para o cenário caótico.

A inovação trazida por Quesnay veio, em partes, da aplicação das ideias do Iluminismo na economia. Isso significava que o pensamento econômico não deveria se guiar por um saber teológico ou tradicional, mas por um sistema racional. A Natureza funciona regida por leis e apenas a humanidade, guiada pela racionalidade, poderia desvendá-las e sair da ignorância das trevas.

Desse modo, a fisiocracia teve um rápido crescimento e influenciou a política francesa de 1756 até o começo da década de 1770 – um período que corresponde ao reinado de Luís XV. Mais tarde, ela passou a perder seu prestígio na França por não ser capaz de resolver os problemas econômicos da época. Entretanto, ela passou a ter prestígio em outros países.

Características da fisiocracia

Para uma melhor compreensão do que foi a fisiocracia, veja abaixo algumas das características principais dessa vertente de pensamento econômico:

  • Ordem natural: a Natureza funcionaria conforme leis próprias, à princípio misteriosas e escondidas ao mundo. Apenas pela Razão seria possível conhecê-las. Com a economia não poderia ser diferente: apenas em harmonia com essas leis naturais seria possível alcançar a prosperidade;
  • Centralidade na agricultura: conforme a fisiocracia, a agricultura seria a única fonte de riqueza porque a quantidade de bens que ela produz é maior do que os seus custos. Além disso, sua fonte é renovável, podendo ser sempre reposta. Todos os outros ramos da produção são estéreis porque não produzem um excedente “gratuito” como a agricultura;
  • Propriedade privada: Quesnay argumenta que, assim como um pássaro tem direito às presas que capturou, uma pessoa tem direito àquilo que obteve pelo seu próprio trabalho.
  • Laissez faire: se cada indivíduo deve possuir aquilo que é fruto de seu trabalho e existem leis naturais que guiam a economia, o governo deveria simplesmente “deixar acontecer” (laissez faire). Ou seja, o Estado deveria reduzir sua intervenção nos aspectos econômicos;
  • Despotismo esclarecido: apesar da política laissez faire, para que nenhum obstáculo se impusesse às leis naturais e a agricultura fosse modernizada, era necessário um governo, um despotismo esclarecido. Portanto, a fisiocracia defendia a manutenção da monarquia francesa.

Apesar de ter ideias inovadoras para a época, a fisiocracia em termos políticos era conservadora. A política liberal de reduzir a intervenção estatal na economia era relativizada com a necessidade de haver um governo racional e bem esclarecido que entendesse as leis naturais.

Fisiocracia e mercantilismo

O mercantilismo foi um fenômeno que ocorreu como um intermediário entre o feudalismo e o capitalismo. Ao contrário da fisiocracia, o mercantilismo surgiu na prática, sem uma teoria ou um pensamento sistemático que o embasasse. Nesse sentido, essa política econômica era nacionalista e colocava diversas barreiras, como os impostos na economia.

A fisiocracia ia justamente ao contrário dessas políticas. Para os fisiocratas, era necessário reduzir a intervenção do governo na economia para que as leis naturais pudessem guiar a produção de riquezas. Além disso, a fisiocracia focalizava o domínio da agricultura, enquanto o mercantilismo ocorria como um forte apreço pela busca de metais preciosos e a expansão marítima.

Fisiocracia e liberalismo

A fisiocracia é considerada uma espécie de precursora do liberalismo, principalmente por conta de suas ideias laissez faire. A redução da intervenção estatal na economia é uma ideia liberal que foi desenvolvida mais adiante por outros autores.

Por outro lado, a fisiocracia era conservadora quanto ao sistema político vigente na França da época: a monarquia. A necessidade de haver um despotismo esclarecido que guiasse as pessoas não faz parte da corrente do liberalismo clássico.

É importante frisar, contudo, que conceitos importantes de Adam Smith – o “pai do liberalismo” – como “preço natural” foram antecipados por Quesnay com a noção de “preço fundamental”. Consequentemente, é possível que ambas as vertentes dialoguem em alguma medida.

Portanto, a fisiocracia foi um pensamento econômico precursor e inovador à sua época, influenciando os economistas posteriores. O próprio Karl Marx, contrário também aos liberais, reconheceu a sua importância. Desse modo, é importante conhecer essas ideias que fazem parte da história das teorias econômicas ocidentais.

Referências

La fisiocracia – Eduardo Escartín González;

Physiocracy – Richard H. Steckel.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [PUC-Rio]

Assinale a opção em que se encontra corretamente identificado um dos preceitos fundamentais da Fisiocracia:
a) “O ouro e a prata suprem as necessidades de todos os homens.”
b) “Os meios ordinários, portanto, para aumentar nossa riqueza e tesouro são o comércio exterior.”
c) “Que o soberano e a nação jamais se esqueçam de que a terra é a única fonte de riqueza e de que a agricultura é que a multiplica.”
d) “Todo comércio consiste em diminuir os direitos de entrada das mercadorias que servem às manufaturas interiores (…)”
e) “As manufaturas produzirão benefícios em dinheiro, o que é o único fim do comércio e o único meio de aumentar a grandeza e o poderio do Estado.”

Resposta: c

Justificativa: para as ideias de Quesnay davam um grande foco na agricultura como a única fonte de riqueza, porque ela seria a única que consegue produzir um excedente – ou seja, gerar mais bens consumíveis do que o seu custo. Além disso, as bases da agricultura seriam renováveis, ao contrário de outras áreas produtivas, como a indústria. A frase ainda deixa clara a defesa política da fisiocracia em relação ao despotismo esclarecimento, sendo a favor da manutenção da monarquia francesa.

2. [IDECAN]

“A economia funciona por uma ordem natural inerente e pré-existente. De acordo com essa premissa, as atividades humanas devem ser mantidas em harmonia com as leis naturais. ‘Laissez faire, laissez passer ’ (deixe fazer, deixe passar) – expressão creditada a Vincent de Gournay e que é o resumo de um conceito que determinava que os governos não deveriam interferir nas atividades humanas, sendo que estas estariam em conformidade com as leis naturais. Além disso, dão ênfase na agricultura — era consenso que a indústria, comércio e manufatura estavam subordinadas à agricultura, e, em menor proporção à mineração, por serem estas as fontes de riqueza, enquanto que os demais setores não detinham o fator produção, sendo, na concepção fisiocrata, meros transformadores.” (MACHADO, Luiz, 2011.)

“Segundo esse pensador, o Estado poderia, em ocasiões pontuais, intervir para evitar a ocorrência de monopólios ou de cartéis comerciais, uma vez que o mercado para se autorregular necessita de competitividade, livre concorrência, a fim de atender os anseios da sociedade, tanto na produção quanto na qualidade dos produtos ofertados e até mesmo no preço destes. Afinal, a intervenção direta do Estado na economia acarretaria na redução do bem estar-social.”
(Disponível em: http://www.webartigos.com/artigos/a-ideia-central-do-pensamento-economico.)

Ao analisar os dois textos e tendo em vista o contexto em que surgiram, é possível identificá-los corretamente como pensamentos pertencentes às seguintes correntes filosóficas, respectivamente:
a) Fisiocracia e Liberalismo
b) Despotismo e Marxismo
c) Mercantilismo e Socialismo
d) Positivismo e Evolucionismo

Resposta: a

Justificativa: sendo ambas muito próximas em alguns sentidos, a fisiocracia e o liberalismo defendiam uma intervenção reduzida do Estado na economia, fazendo com que as próprias lógicas do sistema econômico guiassem a produção das riquezas.

Compartilhe nas redes sociais

TOPO