Darwinismo social

Reafirmando a ideia do progresso e da superioridade da civilização, o darwinismo social se difundiu globalmente como a doutrina da "sobrevivência dos mais aptos".

O darwinismo social é uma doutrina que surgiu no século XIX e foi uma tentativa de aplicar a teoria darwinista para entender as sociedades humanas. No entanto, o que foi aplicado era uma interpretação bastante particular das ideias de Darwin – que muitas vezes era contraditória ao próprio darwinismo original.

Um grande mentor dessa concepção foi Herbert Spencer, um estudioso inglês. Suas ideias repercutiram para além da Europa, ganhando muitos adeptos nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. Consequentemente, essa doutrina influenciou diversas outras teorias e também a política.

O que é darwinismo social

"From the Cape to Cairo" (1902), de Udo Keppler.
“From the Cape to Cairo” (1902), de Udo Keppler.

Uma ideia central para entender o darwinismo social é a noção de progresso. No século XIX, o ideal de progresso já estava impregnado na Europa por filosofias como a do positivismo, incluindo Herbert Spencer, que postulou a “sobrevivência dos mais aptos”.

Dessa forma, o darwinismo social é a doutrina que afirma que a sociedade “evolui”, ou seja, progride conforme os indivíduos mais adaptados e habilidosos sobrevivem socialmente.

Darwinismo ou Spencerismo?

Conforme Spencer, a sociedade é formada por indivíduos que competem uns contra os outros. É como construir uma parede: os tijolos deformados ou quebrados devem ser retirados – do mesmo modo, os indivíduos menos aptos acabam não sobrevivendo socialmente. Com essa “evolução”, a sociedade progride com a sobrevivência dos mais adaptados.

No entanto, para Darwin, evolução nunca significou progresso. Segundo o autor, evolução é simplesmente mudança, e não necessariamente ela leva a algum tipo de hierarquia. Cada espécie é adaptada ao seu contexto e, portanto, não existe uma superior. Por essa razão, muitos estudos preferem chamar essa doutrina de spencerismo social ao invés de darwinismo.

Darwinismo social e racismo

O darwinismo social que foi propagado no século XIX afirmava que havia uma competição entre os indivíduos na sociedade. Para seus adeptos, um dos fatores que influenciava nessa luta era a raça: a existência de indivíduos “degradados” ou “impuros” racialmente podia fazer a sociedade como um todo decair.

Nesse raciocínio, o darwinismo social acabou fundamentando diversas práticas racistas. Para os seguidores dessa doutrina, geralmente a raça branca era a superior e era aquela que podia levar a sociedade ao progresso.

Eugenia

A eugenia surgiu como uma doutrina formulada por Francis Galton que afirmava a necessidade de selecionar os indivíduos com melhores genes para aprimorar a sociedade como um todo. Se existem genes bons, há também aqueles indesejáveis – as práticas eugênicas procuravam eliminar essas características ruins na população.

Outro grande problema nessa ideia é que, na época, “genes bons” eram frequentemente associados à raça branca, enquanto os “ruins” tinham relação com populações não-europeias. Passando pelos amarelos, os indígenas (ou chamados “vermelhos”) e os negros, no topo da hierarquia estariam os brancos. Essa hierarquia, contudo, nunca foi verificada cientificamente.

Darwinismo social e imperialismo

O imperialismo foi o movimento de expansão do território, cultura e economia de uma nação para povos vizinhos e ao redor do mundo. Nesse ponto, o darwinismo social era usado para se argumentar a favor, além do racismo e da eugenia, também do imperialismo.

Uma das justificativas dos que defendiam o imperialismo era que a Europa estava levando a “civilização” para os povos mais “atrasados”. Na prática, o que houve foi uma exploração das pessoas e dos recursos naturais de diversas populações. Em alguns casos, ocorreu até mesmo o extermínio de grupos que resistiam à dominação estrangeira.

O darwinismo social ajudava a encobertar essas violências com o argumento da “sobrevivência dos mais aptos”. As sociedades europeias seriam supostamente mais avançadas e, por isso, conseguiam expandir sua influência ao redor do mundo. Todavia, atualmente sabe-se que todas as culturas são complexas e não há uma forma de organizá-las entre “avançadas” e “atrasadas”.

Entenda mais sobre darwinismo social

O darwinismo social foi uma doutrina que se espalhou pelo mundo juntamente com o imperialismo. Consequentemente, essas ideias tiveram vários impactos sociais e políticos. A seguir, aprofunde mais sobre essa temática com os vídeos selecionados.

Recapitulando o darwinismo social

Nesse vídeo, a Profa. Júlia explica rapidamente sobre o darwinismo social. Esse material pode servir como uma recapitulação do conteúdo visto acima.

O racismo, a eugenia e o Juliano Moreira

As ideias racistas, eugênicas e do darwinismo social estiveram presentes no Brasil. No entanto, a sociedade é complexa, e as pessoas reagem às violências. Nesse contexto figura Juliano Moreira, que por uma exceção do sistema social tornou-se médico e combateu o racismo “científico” no país. Conheça mais sobre sua história.

Sobre o imperialismo

Para entender um dos contextos em que o darwinismo social foi utilizado, é importante aprofundar sobre o imperialismo. Nesse vídeo, a Profa. Anelize explica as condições históricas em que esse fenômeno ocorreu.

Sobre a eugenia

Esse vídeo pode ajudar a entender a eugenia e como ela está relacionada com a doutrina do darwinismo social. Dessa forma, os conteúdos tratados no texto poderão ser melhor trabalhados.

A história da eugenia no Brasil

Compreenda melhor como ocorreu a eugenia no Brasil e também uma parte da história de como o racismo se estruturou na sociedade brasileira. No vídeo são feitas importantes relações com o colonialismo, que também é um fenômeno que teve associação com o darwinismo social.

É possível notar já algumas das consequências do darwinismo social. Essa doutrina é apenas um dos aspectos das ideias que se multiplicaram para justificar a violência e o racismo ao redor do mundo. Hoje, inúmeras pesquisas científicas mostram o quão inadequada foi essa aplicação do darwinismo.

Desse modo, mesmo que o próprio Darwin não tivesse defendido e nem propagado tais ideias, sua teoria foi apropriada e o fenômeno levou o seu nome. Essa é uma temática importante para termos também maior lucidez a respeito dos problemas sociais que ainda enfrentamos atualmente.

Referências

Seria a teoria da evolução darwiniana domínio exclusivo dos biólogos? Implicações da evolução biológica para as ciências humanas – Pedro José Tótora da Glória;

Herbert Spencer e a gênese da sociologia – Samuel de Jesus;

Darwinismo, raça e gênero: conferências e cursos públicos no Rio de Janeiro – Karoline Carula;

Francis Galton: eugenia e hereditariedade – Valdeir Del Cont;

Eugenia negativa e positiva: significados e contradições – Lilian Denise Mai; Emília Luigia Saporiti Angerami;

Evolução do gênero e da sexualidade – Joan Roughgarden;

On the state of nature and social life: thinking about humans and chimpanzees – Eliane Sebeika Rapchan.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UNESP]

Ao final do século passado, a dominação e a espoliação assumiam características novas nas áreas partilhadas e neocolonizadas. A crença no progresso, o darwinismo social e a pretensa superioridade do homem branco marcavam o auge da hegemonia europeia. Assinale a alternativa que encerra, no plano ideológico, certo esforço para justificar interesses imperialistas:

A) A humilhação sofrida pela China, durante um século e meio, é algo inimaginável para os ocidentais.
B) A civilização deve ser imposta aos países e raças onde ela não pode nascer espontaneamente.
C) A invasão de tecidos de algodão do Lancashire desferiu sério golpe no artesanato indiano.
D) A diplomacia do canhão e do fuzil, a ação dos missionários e dos viajantes naturalistas contribuíram para quebrar a resistência cultural das populações africanas, asiáticas e latino-americanas.
E) O mapa das comunicações nos ensina: as estradas de ferro colocavam os portos das áreas colonizadas em contato com o mundo exterior.

Resposta: B

Justificativa: a alternativa que corresponde às justificativas dadas pelos povos europeus para seu imperialismo é a B. Para os imperialistas europeus, a civilização deveria ser levada para os povos mais “atrasados”, como uma missão de catequização ou evangelização.

2. [UNESP - adaptado]

“É difícil acreditar na guerra terrível, mas silenciosa, que os seres orgânicos travam em meio aos bosques serenos e campos risonhos.”
(“C. Darwin, anotação no Diário de 1839”.)
Na segunda metade do século XIX, a doutrina sobre a seleção natural das espécies, elaborada pelo naturalista inglês Charles Darwin, foi transferida para as relações humanas, numa situação histórica marcada:

A) Pela concórdia universal entre povos de diferentes continentes.
B) Pela noção de domínio, supremacia e hierarquia racial.
C) Pelos tratados favoráveis aos povos colonizados.
D) Pelas concepções de unificação europeia e de paz armada.
E) Pela fundação de instituições destinadas a promover a paz.

Resposta: B

Justificativa: o contexto em que as ideias de Darwin foram interpretadas e aplicadas à sociedade foi de dominação e hierarquia racial, que já existiam naquele momento. O darwinismo social surgiu como mais uma doutrina que justificaria tais violências. No entanto, quem formulou tais ideias foram autores que se inspiraram em Darwin, e não o próprio.

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