Cultura erudita

Remete a tradições culturais de classes abastadas e europeias e é utilizada como forma de se diferenciar das culturas populares e de massa.

A cultura erudita é uma expressão utilizada para se referir à arte, literatura, música, ciência e demais linguagens produzidas por uma elite intelectual. Ela é oposta, portanto, à cultura popular ou do povo, que é produzida sem instruções acadêmicas ou formalizadas.

São considerados como sinônimos de cultura erudita, por exemplo, a música clássica ou as pinturas expostas em galerias de museus de acesso restrito. O que é “erudito”, entretanto, passa por modificações conforme o tempo e a sociedade em questão. Vamos aprofundar sobre essa temática a seguir.

Como surgiu a cultura erudita?

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Foi no século XVIII, na Europa, que surgiu um entendimento a respeito do que é uma cultura erudita. A invenção dessa expressão aconteceu em conjunto com a ideia do que seria o seu oposto: a cultura popular ou os “saberes do povo”.

A formulação dessa ideia sobre “cultura erudita” retoma a tradição grega de pensar cultura como sinônimo de boa educação, elevação intelectual, progresso e excelência humana. De outro lado, a “cultura popular” faz referência às tradições, o modo primitivo e essencial de viver, o improviso e o irracional.

Nessa direção, a própria noção de “cultura” passa a ser equivalente à civilização e o ponto “alto” da humanidade em termos de intelectualidade. A própria arte passa a fazer parte dessa concepção. O adjetivo “culto” começa então a descrever pessoas ou coisas que fazem parte desse universo erudito e refinado.

A cultura erudita surge e se reproduz na tentativa de racionalizar e organizar as produções artísticas da humanidade. Quem tem tempo e capital para produzir esse tipo de arte, entretanto, são apenas as classes dominantes ou de elite.

Cultura erudita no Brasil

A noção de cultura erudita não por acaso é europeia. É na Europa que se desenvolveram as ideias sobre civilização e o progresso da humanidade. Dessa forma, frequentemente o que é de origem europeia é considerado sinônimo de cultura erudita.

No Brasil, o consumo dessa cultura e a preocupação em formar uma intelectualidade nacional remonta à Primeira República. Nesse momento, as classes abastadas eram preocupadas em formar uma nação desenvolvida, integrante do capitalismo, ao molde de países estrangeiros.

No entanto, foi também importante o descobrimento de uma cultura popular brasileira, considerada a raiz da identidade nacional e apreciada pelas elites. No cinema, é possível elencar exemplos como São Bernardo de Leon Hirszman e Vidas secas de Nelson Pereira dos Santos.

Cultura erudita, popular e de massa

A definição de cultura erudita perpassa um ideal de classe dominante. Essa é a definição do sociólogo Pierre Bourdieu a respeito da cultura erudita: consumir “cultura erudita”, ou seja, ir ao cinema, apreciar galerias de pintura e ir ao museu, são práticas sociais que conferem ao sujeito um status e a possibilidade de discriminar aqueles que não podem fazer o mesmo.

Conhecer a cultura erudita de sua sociedade e de seu tempo permite que se faça uma diferenciação entre os grupos que têm acesso a ela – a elite, os eruditos – e aqueles que não o possuem. O segundo grupo podem apresentar uma cultura popular ou mesmo uma cultura de massa.

Por essas razões, diferenciar cada uma dessas culturas pode significar reproduzir um discurso elitista sobre elas. Afinal, quem se define enquanto “erudita” é a própria elite que cria essas separações. Entretanto, é importante conhecer essas definições porque elas estão incorporadas na sociedade.

Cultura erudita

A cultura erudita é definida como um sinal de intelectualidade e pertencimento a classes abastadas ou burguesas. Por essa razão, ela se define com aspectos considerados “altos” ou “refinados”:

  • É consumida por um grupo pequeno de pessoas, geralmente elitizadas. O acesso à cultura erudita é reduzido;
  • Apesar de ser consumida por um menor grupo de indivíduos, pretende ser universalmente bela por ser a mais alta expressão da obra humana;
  • Considerada difícil, ou seja, é possível apreciá-la apenas com um treinamento intelectual específico nesse campo;
  • Representa o topo do progresso da humanidade;
  • É produto de uma reflexão e um refinamento intelectual e, por isso, demanda estudos e tempo de dedicação.

Cultura popular

A cultura popular surge como o oposto da cultura erudita. O que é “popular”, assim, possui características muitas vezes antagônicas e até complementares em relação ao “erudito”:

  • A cultura popular é produzida e consumida largamente entre as pessoas, principalmente de classes menos abastadas;
  • Há a presença de regionalismo, ou seja, práticas sociais e produtos considerados típicos de uma região;
  • É supostamente ingênua, no sentido de não ser reflexiva ou crítica. Seria ligada ao “fazer” do cotidiano e não ao “pensar”. No entanto, as pesquisas antropológicas já mostraram como esse aspecto não é totalmente verdadeiro;

  • Primitiva, no sentido de que remete às tradições arraigadas na sociedade;
  • De baixo nível intelectual, ou seja, produzida por pessoas que não tiveram acesso à formação acadêmica ou não estão preocupadas com essa intelectualidade.

Cultura de massa

A cultura de massa surge com as mídias de comunicação: o jornal, o rádio, a revista, a televisão e a internet. Essas tecnologias permitem uma nova forma de difundir a cultura, criando características próprias:

  • Grande difusão: a cultura de massa, como se refere o próprio nome, surge como resultado da possibilidade de difundir uma música, um filme, um livro para um grande número de pessoas;
  • Volta-se ao entretenimento e ao consumo, passando a se concentrar em elementos que chamem a atenção do público;
  • É considerada como unilateral, ou seja, um agente emitindo um conteúdo ao público que consome as informações passivamente. Entretanto, essa interpretação tem sido criticada por diversos autores;
  • Geralmente não é gerada a partir de um trabalho intelectual, de reflexões ou críticas fundamentadas.

É importante reiterar que essas definições mudam ao longo do tempo e conforme o contexto social. Sérgio Paulo Rouanet usa o exemplo do filme Casablanca, que foi um produto das massas, mas tornou-se parte de uma cultura erudita a partir do momento que começou a ser consumida por grupos intelectualizados ou de elite.

Outra ilustração importante é a obra Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Ela foi uma mulher negra habitante da favela que escreveu um diário publicado em livro que fora bastante apreciado pelas classes abastadas. Dentre várias razões, a descrição do cotidiano de pobreza e dificuldades da autora agradou a elite da época.

Dessa forma, um produto de uma cultura popular pode acabar por ser apreciado pela elite e tornar-se um clássico. Esse é um dos motivos pelo qual a divisão entre cultura erudita, popular e de massas é relativa e mutável. Não existe uma cultura erudita em absoluto, assim como as demais.

Exemplos de cultura erudita

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Como já explicado, o que é considerado cultura erudita é relativo e pode variar de acordo com o tempo e contexto social. Entretanto, é possível elencar alguns exemplos de cultura erudita para facilitar a compreensão.

Música erudita

A música erudita pode ser sinônimo, muitas vezes, de música clássica ou de concerto. Ela remonta à tradição clássica europeia, tendo uma estética própria, ambiente e instrumentos que remetem à produção desse gênero de música.

  • Ludwig van Beethoven: Beethoven nasceu em 1779 na atual Alemanha. Suas obras são conhecidas como representantes da música clássica, como a Sintonia Nº3 ou a Sinfonia Nº5
  • Wolfgang Amadeus Mozart: Mozart é outro representante da música clássica, nascido em 1756 na atual Áustria. Suas músicas mais conhecidas incluem Eine Kleine Nachtmusik e a Sinfonia Nº40.
  • Heitor Villa-Lobos: nascido em 1887, Villa-Lobos é um compositor brasileiro que ficou reconhecido internacionalmente com O Guarani.

Cinema erudito

O cinema erudito, assim como a música clássica, possui raízes na tradição europeia. É muitas vezes considerado como oposto aos filmes de grande bilheteria, que são mais ligados a cultura de massa. Com o passar do tempo, porém, filmes antigos de muito sucesso podem ser reconhecidos como eruditos.

  • Paris, Texas (1984): é um filmes francês dirigido por Wim Wenders, que pode ser considerado um representante do cinema brasileiro por compor uma tradição europeia e intelectualizada.
  • Vidas Secas (1963): o filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos acabou se tornando um filme erudito, mesmo tratando de temáticas populares. A história aborda uma família no Nordeste que vive para sobreviver às dificuldades.

É importante pensar as diferenças colocadas entre cultura erudita e cultura popular para entender quais são as relações sociais que estão implicadas nessas distinções. A sociologia ajuda a compreender como essas separações são feitas e quais os efeitos sociais que elas produzem.

Referências

Cultura popular, cultura erudita e cultura de massas no cinema brasileiro – Marina Soler Jorge;

Cultura popular: as construções de um conceito na produção historiográfica – Petrônio Domingues;

Subsídios teóricos do conceito cultura para entender o lazer e suas políticas públicas – Marco Antonio Bettine de Almeida; Gustado Luis Gutierrez;

A comunicação do grotesco – Muniz Sodré.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UNIOESTE]

“A separação entre cultura popular e cultura erudita, com a atribuição de maior valor a segunda, está relacionada à divisão da sociedade em classes, ou seja, é resultado e manifestação das diferenças sociais. Há, de acordo com essa classificação, uma cultura identificada com os segmentos populares e outra, superior, identificada com as elites” ( TOMAZI, Nelson D., Sociologia para o ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2010).

Sobre cultura erudita e cultura popular, é CORRETO afirmar:

A) A chamada cultura popular abrangeria expressões artísticas como a música clássica de padrão europeu, as artes plásticas, esculturas e pinturas, o teatro e a literatura de cunho universal.
B) A chamada cultura erudita encontra expressão nos mitos e contos, danças, música – de sertaneja à cabocla – artesanato rústico de cerâmica ou de madeira e pintura, corresponde, enfim, à manifestação genuína do povo.
C) A chamada cultura erudita abrangeria expressões artísticas como a música clássica de padrão europeu, as artes plásticas, esculturas e pinturas, o teatro e a literatura de cunho universal.
D) A chamada cultura erudita inclui expressões urbanas recentes, como os grafites, o hip-hop e os sincretismos musicais oriundos do interior ou das grandes cidades, o que demostra haver constante criação e recriação no universo cultural.
E) O folclore é a mais alta expressão de cultura erudita.

Resposta: C

Justificativa: a cultura erudita tem fortes raízes europeias e burguesas, com pretensões universalistas. A cultura popular é considerada o seu oposto, com características contrárias: regional, irracional e não-intelectualizado.

2. [UEM]

Assinale o que for CORRETO sobre as culturas erudita e popular:

( ) Cultura popular pode ser definida como sinônimo de cultura do povo, ou seja, uma prática própria de grupos subalternos da sociedade.

( ) Os produtores da cultura erudita fazem parte de uma elite política, econômica e cultural. Ela é transmitida, legitimada e confirmada por diversas instituições sociais.

( ) Os produtores das culturas erudita e popular gozam de prestígio semelhante na sociedade.

( ) Os fatos folclóricos reproduzem a cultura dos círculos eruditos e das instituições que se dedicam à renovação e à conservação dos patrimônios científico e artístico.

( ) As expressões “cultura popular” e “cultura erudita” designam dois conjuntos coerentes e internamente homogêneos no que se refere às suas práticas.

A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
a) V V F F F
b) F V V F V
c) V F F V F
d) F V F V V
e) V V F V F

Resposta: A

Justificativa: a cultura popular e a cultura erudita possuem status diferentes na sociedade, sendo que a primeira é considerada a “cultura do povo”, tendo como exemplo o folclore. A segunda faz parte de uma elite econômica e política.

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