Che Guevara

Che Guevara foi um importante líder na Revolução Cubana e é atualmente um símbolo cultural do comunismo que divide opiniões.

Ernesto Guevara de La Serna, apelidado e conhecido como Che Guevara, foi um dos maiores militantes comunistas da América Latina. Seu carisma, liderança e radicalidade inspiraram uma série de manifestações sociais, inclusive nos movimentos armados. Atualmente, Che Guevara se tornou um símbolo – seja para admiração, para a crítica, ou mesmo a depreciação – de um posicionamento político revolucionário.

A vida e trajetória de Guevara, que ganhou o apelido de “Che” durante a sua militância política, é ainda interesse de muitos biógrafos. Além disso, seu engajamento possui grande importância histórica pois marca parte dos caminhos traçados para chegar a uma revolução social. Consequentemente, sua vida acaba sendo importante dentro da história humana.

Biografia: quem foi Che Guevara

Fotografia de Che Guevara
Fotografia de Che Guevara

Ernesto Guevara de La Serna foi registrado no dia 14 de junho de 1928, mas, na verdade, nasceu um mês antes, em maio. Filho de Ernesto Guevara Lynch e de Celia de la Serna y Llosa, teve sua data de nascimento falsificada para evitar um escândalo pelo fato de sua mãe estar grávida antes do casamento.

Desde pequeno teve problemas com asma, o que fez com que seus pais se mudassem de Rosário, na Argentina, onde nasceu. Foram para Alta Gracia em 1933 e ficaram até 1943, quando Guevara concluiu o ensino secundário e começou a cursar medicina. Aos 22 anos, realizou sua primeira viagem de bicicleta pela Argentina.

O caráter ideário e empolgado de Guevara ficou ainda mais evidente quando, um ano depois, fez uma viagem de moto por toda a América Latina com Alberto Granado. Nessa época, ele também já se aprofundava em leituras: além de Karl Marx e Lênin, consultava autores como Alfredo Palacios e Jack London.

Em 1955, Che Guevara conheceu Fidel Castro e, em suas próprias palavras, “um jovem líder cubano me convidou para me juntar ao seu movimento, um movimento armado pela libertação de seu país, e eu, é claro, aceitei.” O movimento visava destituir o ditador Fulgencio Batista do poder e, em 1959, foi vitorioso.

Desde então, Che Guevara se dedicou ao movimento cubano e realizou articulações com a União Soviética. Em 1966, quando se preparava para um movimento na Bolívia, foi assassinado por forças comandadas pela CIA. Acabou se tornando uma das maiores representações da luta revolucionária no mundo, em especial na América Latina. Mesmo em sua época, já simbolizava revolução e também uma ameaça, o que explica o seu assassinato.

Viagem pela América Latina

Desde muito jovem, Che Guevara tinha uma rica leitura de obras marxistas e se sensibilizava com a miséria e o sofrimento humano. Segundo seu pai, essa foi uma das razões que fez com que ele partisse a uma viagem de moto pela América Latina em 1951. Um de seus objetivos era testemunhar com seus próprios olhos a vida das pessoas na pobreza.

Guevara tinha um objetivo missionário de viver entre os menos privilegiados e enfrentar os perigos e desconfortos necessários. Sempre que pôde, enviou cartas à sua família para dar sinais de vida. Nessa primeira viagem, em 1951, foi acompanhado de seu amigo Alberto Granado, um bioquímico.

Viajaram por pelo menos um ano e passaram por Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Venezuela. Enquanto um médico em formação, Che Guevara ajudou a tratar algumas doenças nas populações mais pobres. Essa viagem acabou servindo como um caminho de autoconhecimento: as experiências proporcionadas acabaram sendo decisivas para formar o militante.

Trajetória política de Che Guevara

Desde suas viagens pela América Latina, Che Guevara descobria a si e mirava um sentido especial para sua vida. Essa trajetória daria significado para o que decidiria fazer no futuro: juntar-se a Fidel Castro na Revolução Cubana. Esse pode ser considerado o marco e ao mesmo tempo o ponto alto de sua vida política. Confira alguns aspectos dessa trajetória.

Fidel Castro e Raúl Castro

Em 26 de julho de 1953, Fidel Castro e seu irmão Raúl Castro foram presos por fazer parte de um grupo de rebeldes contra o ditador cubano Fulgencio Batista. Eles atacaram um quartel do Exército e ocuparam o espaço até que foram derrotados. 19 soldados e 8 rebeldes foram mortos no combate, enquanto 69 foram torturados e executados. Fidel, líder da revolta com 26 anos, sobreviveu.

Condenado à prisão e mais tarde anistiado, a revolta lhe rendeu admiração, inclusive de Che Guevara. Fidel, Raúl Castro e Guevara se conheceram no dia 7 de julho de 1955. Após horas de conversa e um jantar, Fidel Castro convidou Che Guevara para participar de seu movimento. No fim, Guevara acabou se tornando um dos líderes e a chave principal para que a estratégia das guerrilhas fosse desenvolvida.

Cuba

A Revolução Cubana foi vitoriosa para Fidel Castro. Che Guevara se tornou então diretor do Banco Nacional e também Ministro da Indústria. Apesar de acabar envolvido em funções burocráticas, teve papel importante na teorização de uma educação revolucionária com aspectos de rebeldia e liberdade.

Em fevereiro de 1959, Guevara ganhou cidadania cubana a partir de uma cláusula que deu esse direito àqueles que batalharam contra a ditadura de Fulgencio Batista. Mais tarde, ele renunciou sua cidadania cubana e seus 11 anos de serviço para partir ao movimento que ocorria em Congo, na África.

Outras atuações em guerrilhas

Che Guevara partiu de Cuba para se juntar ao movimento congolês em 1965, quando ele e Fidel Castro pressupunham que a Revolução estava mais próxima. Lá, deixou sua fama e estima para estar no meio de pessoas que sequer o reconheciam. A missão de exportar a Revolução e formar uma guerrilha acabou fracassando.

Guevara não desejava voltar à Cuba e queria continuar uma expedição revolucionária, mas acabou ficando dependente dos serviços secretos de Cuba para se proteger. Nesse contexto, surgiu a possibilidade de atuação no movimento da Bolívia, onde ele ajudaria a treinar a guerrilha. Entretanto, foi lá que ele acabou sendo assassinado.

Para ele, a guerrilha era apenas um meio e não um fim. Ela tinha a função de ensinar uma consciência revolucionária, já que, segundo ele, as massas aprendiam mais pela ação do que por discursos. Ele queria que toda a sociedade se tornasse uma grande escola de pessoas engajadas que aprenderiam a valorizar os objetivos coletivos e agir em favor disso.

Prisão e execução

Guevara estava em uma missão na Bolívia, formando uma guerrilha para retirar um ditador do poder, enquanto agentes da CIA e o governo boliviano se uniam para capturá-lo. Em 9 de outubro de 1967, ele e outros guerrilheiros foram cercados e assassinados. Conforme relatos, as mãos de Guevara foram cortadas e levadas para os EUA para confirmar a sua morte.

Esse acontecimento foi registrado em diversas fotografias de seus últimos momentos e de seu corpo baleado. De fato, o guerrilheiro já estava preparado para a morte desde que saiu de Cuba para se juntar ao movimento congolês. Quando partiu, já havia se despedido de sua família. Os restos mortais de Che Guevara foram encontrados apenas em 29 de junho de 1997.

Comunismo

Che Guevara foi um militante comunista influenciado sobretudo por Karl Marx. Ele e seus aliados tinham como meta alcançar a Revolução, destituir a propriedade privada e o sistema capitalista. Viveu em uma época de forte embate entre a União Soviética e os Estados Unidos e também de uma efervescência política na América Latina.

Nesse contexto, as propagandas ideológicas eram fortes de todos os lados, fazendo com que o “comunismo” fosse lido como uma ameaça concreta para os capitalistas. Acabou se criando uma grande ideia do “comunismo” como o agente do caos, o mal a ser eliminado. Como consequência, a imagem de Guevara acaba tendo essa leitura polarizada: herói ou vilão.

Assim, a trajetória política de Che Guevara é bastante complexa e movimentada. Isso reflete justamente na vida que ele almejava ter e que também propagava no seu modelo pedagógico: uma ética e uma educação ativa sempre orientada para a Revolução.

Che Guevara na cultura

O revolucionário se tornou um grande símbolo político. Muitas pessoas usam bonés e camisetas estampadas com seu rosto como forma de identificação ideológica. Mas, além disso, essa figura histórica foi retratada em diversas obras artísticas, em especial no cinema. Veja uma lista com algumas delas.

  • Che! (1969, Lalo Schifrin): esse filme retrata a vida de Guevara, principalmente na Revolução Cubana, até os últimos esforços de avançar com o movimento revolucionário na Bolívia.
  • Diário de Motocicleta (2004, Walter Salles): um dos filmes mais conhecidos sobre Guevara, conta a história de sua viagem pela América Latina ao lado de Alberto Granado.
  • Che: O Argentino (2008, Steven Soderbergh): esse filme retrata o momento em que o militante conhece Fidel Castro e se junta ao movimento revolucionário cubano, tornando-se parte da guerrilha.
  • Che 2: A Guerrilha (2008, Steven Soderbergh): como continuação de “Che: O Argentino”, essa trama retrata os acontecimentos seguintes à Revolução Cubana, e a atuação de Che Guevara no movimento revolucionário boliviano.
  • Caçando Che (2017, Mitch Weiss e Kevin Maures): esse é um livro de caráter jornalístico que conta o processo de investigação de Che Guevara antes de sua morte na Bolívia, onde foi assassinado.

Muitas obras retratam a vida de Che Guevara em diversas perspectivas, não apenas pela abordagem histórica. Como ele foi uma figura de liderança, acaba inspirando também a arte ou a própria militância de pessoas atualmente, em outros contextos.

10 frases de Che Guevara

Che Guevara podia ter uma sólida formação intelectual, mas era sobretudo um militante interessado na aplicação prática de suas convicções. Desse modo, seus discursos sempre foram orientados pelas experiências que ele encontrava na direção da Revolução. Confira uma lista de 10 frases de Guevara que ilustram alguns tópicos de seu pensamento.

  1. “[…] o que é um partido marxista-leninista: ‘pessoas unidas por uma comunidade de ideias que se agrupam para dar vida às concepções marxistas, ou seja, para levar a cabo a missão histórica da classe operária’.”
  2. “A Revolução Cubana polarizou forças; frente ao dilema povo ou imperialismo, as débeis burguesias nacionais elegem o imperialismo e atraiçoam definitivamente o seu país. Perde-se quase totalmente a possibilidade de que nesta parte do mundo se produza uma passagem pacífica para o socialismo.”
  3. “Tínhamos chegado ao fim de uma etapa que se baseava na luta de morte contra o sistema estabelecido em Cuba, representado pelo ditador Batista, mas o fato de seguir consequentemente uma linha revolucionária tendente a melhorar o estado de nossa sociedade e liberá-la ao máximo de todas as travas econômicas, nos levava forçosamente a uma luta frontal contra o imperialismo.”
  4. “O marxista deve ser o melhor, o mais pleno, o mais completo dos seres humanos, mas, sempre, antes de mais nada, um ser humano; um militante de um partido que vive e vibra em contato com as massas; […] um trabalhador sofrido que entrega suas horas de descanso, sua tranquilidade pessoal, sua família ou sua vida à Revolução, mas nunca está alheio ao calor do contato humano.”
  5. “O socialismo não é uma sociedade beneficiente, não é um regime utópico, baseado na bondade do homem como homem.”
  6. “O socialismo é um regime a que se chega historicamente, e que tem como base a socialização dos bens fundamentais da produção e a distribuição equitativa de todas as riquezas da sociedade, dentro de um padrão no qual haja produção de tipo social.”
  7. “A sociedade velha pesa, os conceitos da sociedade velha pesam, constantemente, na consciência dos homens. E aí é onde o fator de aprofundamento da consciência socialista adquire tanta importância.”
  8. “Aqui está uma das tarefas da juventude: estimular, dirigir com o exemplo a produção do homem de amanhã, e nessa produção, e nessa direção está incluída a produção própria, porque ninguém é perfeito e todo mundo deve ir melhorando suas qualidades mediante o trabalho, as relações humanas, o estudo profundo, as discussões críticas, tudo isso é o que vai transformando as pessoas.”
  9. “A nós nos atacam muito pelo que somos, mas nos atacam muitíssimo mais pelo que mostramos a cada um dos povos da América o que se pode ser.”
  10. “De nada adianta o esforço isolado, o esforço individual, a pureza de ideais, a decisão de sacrificar toda uma vida pelo mais nobre de todos os ideais […]. Para se fazer revolução é necessário isto que há em Cuba: que todo um povo se mobilize e que aprenda, com o uso de armas e o exercício da unidade combatente, o que vale uma arma e o que vale a unidade do povo.”

Em todos os discursos, é possível perceber o engajamento e o objetivo político de Che Guevara. Para ele, a maioria da população – que é desprivilegiada no sistema capitalista – deve adquirir a consciência crítica para lutar contra o capital e a propriedade privada. No caso da América Latina e dos povos subjugados, seria imprescindível, nesse caminho, combater o imperialismo.

Entenda mais sobre Che Guevara

Diferentes opiniões cercam a vida de Che Guevara, que possui representações diversas e até contraditórias entre seus debatedores. Como ele inspira diversas pessoas, as controvérsias sobre esse militante são grandes. Confira uma lista de vídeos que apresentam algumas dessas opiniões a respeito de Guevara.

Polêmicas envolvendo Che Guevara

Nesse vídeo, diversas polêmicas a respeito do militante são tratadas e postas em debate. Como ele é uma figura conhecida mundialmente, é importante conhecer essas fontes.

Che Guevara: herói ou vilão?

Os professores Eduardo Bueno e Marcelo Madureira discutem opiniões a favor e contra a figura de Che Guevara, considerando diferentes aspectos da história e de sua biografia.

Che Guevara na Revolução Cubana

Para entender melhor a vida de Che Guevara, é imprescindível compreender o contexto da Revolução Cubana, onde ele foi um dos grandes líderes ao lado de Fidel Castro.

Che Guevara é, de fato, uma figura polêmica, mas sua importância histórica é inquestionável. É ainda mais importante conhecer sua trajetória em um momento que, como outras vezes no Brasil, o comunismo se torna alvo de debates.

Seja qual for a opinião a respeito, é importante que se faça uma discussão séria e embasada sobre o assunto. É importante destacar, ainda, que Che Guevara é apenas um dos personagens e uma das facetas possíveis de propostas revolucionárias e comunistas.

Referências

De moto pela América do Sul: diário de viagem – Ernesto “Che” Guevara;

Che Guevara – Biblioteca Época;

Che Guevara: a vida em vermelho – Jorge G. Castañeda;

Textos políticos e sociais – Ernesto “Che” Guevara;

Che Guevara: uma biografia – Jon Lee Anderson.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UNISINOS]

“Um novo período revolucionário para o marxismo latino-americano (…) teve início após 1960. (…) O líder e pensador revolucionário que melhor simboliza e encarna esse novo período para o marxismo na América Latina é Ernesto ‘Che’ Guevara (1928-67), não apenas por causa do seu papel histórico na Revolução Cubana, mas especialmente pela profunda influência de seus escritos e de sua atividade prática nas novas correntes revolucionárias do continente”.

(LÖWY, Michael. O marxismo na América Latina. Uma antologia de 1909 aos dias atuais. 2ª ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006, p. 45).

À figura de Ernesto Che Guevara, bem como ao seu pensamento e atuação política, pode(m) ser associado(s) o(s) tema(s):

I – a busca por um caminho socialista, tendo em vista uma sociedade mais justa, igualitária e solidária.
II – a luta armada como principal forma de combate aos regimes ditatoriais predominantes na América Latina.
III – a plena comunhão de ideias com Fidel Castro, desde o processo revolucionário cubano até a morte de Che, no Congo, em 1967.

Sobre as proposições acima, pode-se afirmar:
a) apenas I está correta
b) I e II estão corretas
c) I e III estão corretas
d) II e III estão corretas
e) I, II e III estão corretas

Resposta: B

Justificativa: os objetivos de Che Guevara sempre giraram em torno de uma revolução que superasse a sociedade capitalista e o combate a governos ditatoriais, como uma forma de alcançar uma sociedade mais justa. Sua morte aconteceu na Bolívia, quando atuava em uma guerrilha.

2. [PUC-RIO]

Charge de Che Guevara
A charge acima indica uma ironia para quem conhece os recentes processos histórico-sociais da América Latina, porque
(A) Che Guevara lutava pelo fim do fordismo na sociedade capitalista dos anos de 1960, por considerá-lo o maior problema para a construção do socialismo, e a sua imagem, na charge, é construída pelos maiores ícones do setor automobilístico internacional.
(B) o sistema socialista, defendido por Che Guevara, é baseado na produção e consumo em massa de bens duráveis, e foi derrotado pelas corporações automobilísticas internacionais. Na charge, a imagem de Che Guevara é formada por elas.
(C) a imagem de Che Guevara foi formada por ícones da sociedade de consumo, o que desvirtua a essência do seu pensamento revolucionário e anticapitalista.
(D) Che Guevara, líder revolucionário socialista, assassinado a mando das corporações automobilísticas internacionais, é mostrado exatamente pelas principais marcas mundiais envolvidas com a sua eliminação.
(E) por mais que Che Guevara representasse, nos anos de 1960, a resistência ao domínio do capitalismo internacional, importantes corporações do setor automobilístico utilizaram, durante a Guerra Fria, a sua imagem na mídia de massa como ícone da juventude consciente e da liberdade de expressão.

Resposta: C

Justificativa: a charge é uma ironia da imagem clássica de Che Guevara com ícones capitalistas que incentivam o consumismo que são, por sua vez, ideais a que Guevara combatia.

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