Versos livres e versos soltos

Os versos livres e os versos soltos podem ser usados para a composição de poesias, tendo sido muito usados pelo modernismo, que não tinha enfoque nas regras.

Os versos livres e versos soltos são mais um dos pontos da literatura. Na história desta arte já passamos por diversas formas de escritas, todas corretas e cada uma com suas características e suas belezas. Antes de mais nada, faz-se necessário relembrarmos o que é metrificação e versificação. Quando falamos em verso, estamos nos referindo diretamente às linhas de um poema que, normalmente, seguem um padrão de métrica, ou seja, uma medida. A metrificação, portanto, está relacionada de forma direta ao estudo dos versos e sua classificação que segue a quantidade de sílabas poéticas que os versos apresentam.

versos livres
Imagem: Reprodução

Para saber quantas sílabas poéticas os versos apresentam, precisamos ter uma noção de escansão, que nada mais é do que a separação de sílabas poéticas. Essa, se dá a partir do início de cada verso, indo até a sílaba tônica da última palavra. A versificação, por sua vez, representa o conjunto de elementos que compõe as poesias, ou seja, a rima, a metrificação, o encadeamento, a musicalidade, o ritmo, entre muitos outros.

Os versos livres e os versos soltos pertencem à literatura com suas características, que serão explanadas a seguir.

Versos livres

Também conhecidos como versos irregulares, os versos livres são aqueles que não apresentam um padrão definido de métrica, não obedecendo, portanto, à formas fixas, apresentando-se de forma oposta aos versos regulares. Os textos poéticos que possuem versos livres, entretanto, contêm o fator mais importante das poesias, que é a musicalidade.

Quando falamos em versos livres, diretamente estamos falando de uma importante característica da literatura moderna e contemporânea, tendo em vista que os autores que faziam uso destes versos tinham como objetivo a criação de algo novo, algo inovador que rompesse com os padrões clássicos das formas poéticas tradicionais.

Ainda que os versos livres possam apresentar rimas, normalmente não o fazem, tampouco apresentam métrica, na maioria das vezes. Confira abaixo um poema de Manuel Bandeira para entender melhor o conceito de versos livres:

Poética

“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que sejafora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Versos soltos

Também conhecidos pelo nome de versos brancos, os versos soltos podem, ou não, estar ligados aos versos livres. Chamamos de versos soltos aqueles que não apresentam esquemas de rima, ainda que apresentem métrica em sua composição.

Bastante utilizados desde o século XVIII no Brasil, os versos soltos são bastante comuns em poesias românticas, se fazendo bastante presentes, entretanto, também na literatura moderna e na literatura contemporânea. Para melhor compreensão, faça a leitura do escritor Guilherme de Almeida, denominado “Versos Brancos”, referindo-se claramente à técnica dos versos soltos.

Versos Brancos
“Uma fina saudade vai varando
a quietude cansada do meu tédio.
Mas, saudade do quê? de quem?…
Os dias
são bolas de cristal, azuis, polidas,
lisas, sem uma aresta traiçoeira
em que venha prender-se e estraçalhar-se
o véu de um pensamento de outros tempos;
sem nem o esconderijo de uma nuvem
onde fique um olhar longo de outrora
olhando para as cinzas destes instantes;
nem uma sombra forte em que se oculte
um pedaço perdido de passado…
Tudo, em torno de mim, é luminoso,
alto e macio, deslizante e lindo;
tudo é apenas um lúcido presente:
é a negação perfeita da saudade…
E no entanto – por quê? por quem?… – eu vejo
e ouço passar na terra a minha vida
cantando uma cantiga vagarosa
de água que leva flores na descida…”

Referências

Novíssima Gramática da Língua Portuguesa – Domingos Paschoal Cegalla

Poesia e livro didático: uma relação e várias questões – Elaine Aparecida Lima

Por Natália Petrin
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