Rachel de Queiroz

A autora cearense é um dos nomes mais importantes da literatura brasileira e possui uma vasta produção literária.

A segunda fase do Modernismo contou com diversos autores proeminentes e, entre as figuras femininas, destaca-se Rachel de Queiroz, nordestina que, assim como Graciliano Ramos, debruçou-se especialmente sobre o romance regionalista.

Sua principal obra, O Quinze, projetou seu nome como uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira. Neste texto, você encontrará uma breve biografia da autora cearense, assim como as características gerais de sua obra.

Biografia

Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz em outubro de 1997. Fonte: Arquivo Folha Imagem.

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, no dia 17 de novembro de 1910. Sua mãe, Clotilde Franklin, e seu pai, Daniel de Queiroz, desde cedo desejaram uma educação de qualidade para a filha. Morou durante dois anos no Rio de Janeiro, em seguida a família mudou-se para Belém do Pará, e depois novamente para a terra natal. Estudou em uma das melhores escolas de Fortaleza, Colégio da Imaculada Conceição, e concluiu com três anos de antecedência o chamado curso normal.

Em 1927, inicia sua vida como escritora no jornal O Ceará. Escreveu também para outras publicações, como Correio da Manhã, Última Hora, Diário de Pernambuco e O Estado de São Paulo. Em 1930, publicou seu primeiro romance, O Quinze, recebendo o prêmio da Fundação Graça Aranha pela obra. Casou-se com José Auto Oliveira em 1932 e publicou seu segundo romance, João Miguel. Um ano após, nasceu sua primeira e única filha, Clotilde, que faleceria um ano e meio depois.

Primeira mulher na Academia Brasileira de Letras

Em 1935, mudou-se para Maceió, onde conviveu com Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo e Jorge de Lima. Publicou em 1937 e 1939, respectivamente, os romances Caminhos de Pedra e As Três Marias. Ainda em 1939, separou-se de José Auto e se casou, em 1940, com Oyama de Macedo. Em 1945, foi contratada com exclusividade pela revista O Cruzeiro e escreveu diversas crônicas. Além disso, recebeu pela peça de teatro A Beata Maria do Egito o Prêmio de Teatro do Instituto Nacional do Livro.

Em 1957, após 36 anos sem o lançamento de um romance, publicou Dôra, Doralina. Em 1977, tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e, junto com Cecília Meireles, foi uma das primeiras mulheres a obter reconhecimento por sua produção literária no Brasil. Intitulado Memorial de Maria Moura, publicou em 1992 seu último romance. Rachel de Queiroz faleceu em 4 de novembro de 2003 na capital fluminense.

Características da obra de Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz foi uma escritora amplamente ativa durante seu período de vida e escreveu romances, poemas, crônicas, além de dedicar uma parte de sua carreira ao teatro. Já na segunda fase do Modernismo, a escritora cearense demonstra um equilíbrio entre a forma e o conteúdo em sua obra e as suas principais características são: crítica da realidade brasileira, caráter regionalista, linguagem verossimilhante e próxima do coloquial.

  • Prosa regionalista: em sua primeira obra, O Quinze, a autora cearense acompanha uma seca de grandes proporções que atingiu o Nordeste em 1915. Queiroz adentrou, por meio da prosa regionalista, nas dificuldades do povo nordestino, em especial dos retirantes. Assim como Graciliano Ramos, a escritora não apenas descreve a vida dura no sertão nordestino, mas apresenta uma crítica às estruturas sociais e ao abandono estatal da região. Ademais, mergulha no psicológico de suas personagens e procura demonstrar suas dores e anseios.
  • Crítica social: a essência dos romances de Rachel de Queiroz é a tensão crítica resultante de uma ficção oriunda de um processo real. A própria escritora presenciou a grande seca que retrata em seu livro de estreia. Assim, como romancista, Queiroz não só faz uma análise dos problemas sociais que percebe ao seu redor, mas os relaciona em sua essência e os transmite para a escrita (ZÉRAFFA, 1974).
  • A verossimilhança na linguagem: o caráter social de Queiroz também reverbera na estilística de sua escrita ao utilizar uma linguagem mais próxima do coloquialismo. São utilizados vocábulos do dia a dia dos falantes, aproximando sua escrita da oralidade do povo que é retratado. Há uma valorização não só do fato narrado, mas da pluralidade da língua de quem é narrado.

A escrita de Queiroz é, portanto, riquíssima em seu vocabulário popular e na crítica social que é construída. Além disso, há uma análise psicológica de suas personagens que permite ao leitor adentrar ainda mais no contexto proposto pela autora.

Obras mais importantes

A escritora cearense deixou sete romances, além de escrever peças de teatro, poemas, crônicas e literatura infantil. As principais obras da autora são:

  • O Quinze (1930): seu romance de estreia e que a marcou como grande escritora no cenário nacional. O livro acompanha a marcha da família de retirantes de Chico Bento. Abandonada pelas autoridades, busca proteção e alimento no inóspito sertão nordestino.
  • As Três Marias (1939): obra que demonstra o amadurecimento total de Rachel de Queiroz nos quesitos crítica social e marcação psicológica. O livro recai sobre a protagonista Maria Augusta e seu relacionamento com mais duas amigas que conheceu no internato.

Além dos dois romances citados, pode-se elencar outras obras da vasta produção da autora. Entre elas:

  • Romances: O Quinze (1930); João Miguel (1932); Caminho de Pedras (1937); As Três Marias (1939); O Galo de Ouro (1985); Dôra, Doralina (1975) e Memorial de Maria Moura (1992).
  • Crônicas: A Donzela e a Moura Torta (1948); Cem Crônicas Escolhidas (1958); O Brasileiro Perplexo (1963); As Menininhas e Outras Crônicas (1976) e O Jogador de Sinuca e mais Historinhas (1980).
  • Teatro: Lampião (1953) e A Beata Maria do Egito (1958).
  • Literatura infantil: O Menino Mágico (1969) e Cafute e Pena-de-Prata (1986).

Curiosidades sobre Rachel de Queiroz

Aqui estão algumas curiosidades sobre a vida e obra da autora cearense.

  • Foi a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras. A posse ocorreu em 4 de novembro de 1977 e ocupou a cadeira nº 5.
  • Graciliano Ramos assumiu que Rachel de Queiroz fosse um pseudônimo de um autor homem, devido à dureza do romance O Quinze.
  • Recebeu de Jânio Quadros o convite para tornar-se ministra da Educação. Entretanto, recusou e afirmou que não nascera para ser uma figura pública.
  • Rachel de Queiroz também foi tradutora. Traduziu mais de 40 livros da língua inglesa e francesa.
  • Em 1993, recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura portuguesa. Foi a primeira mulher a recebê-lo.
  • Por parte materna, é parente de José de Alencar.
  • Foi militante comunista. Em 1937, foi presa durante o regime do Estado Novo.

Como se pode perceber, Rachel de Queiroz quebrou diversas barreiras como escritora e foi muito ativa no âmbito social.

Conheça mais sobre a autora

Para compreender melhor sobre a vida e obra de Rachel de Queiroz, assista aos vídeos abaixo.

Entrevista de Rachel de Queiroz para o programa Roda Viva

Entrevista do Roda Vida com Rachel de Queiroz. Interessante para ouvir a própria escritora e sua visão sobre sua obra e vida.

Sobre O Quinze, primeiro romance da autora

O principal livro de Rachel de Queiroz é abordado neste vídeo. Assista esta resenha para conhecer melhor sobre as características e contexto da obra.

Prosa na segunda fase do Modernismo

A vertente regionalista ganhou força durante a segunda fase do Modernismo brasileiro. Para conhecer um pouco mais sobre essa corrente literária, assista ao vídeo.

Portanto, Rachel de Queiroz é uma autora que sempre merece ser revisitada pela abordagem psicológica de suas personagens e contexto de produção riquíssimo em detalhes.

Referências

O êxodo rural nos romances O Quinze e A Bagaceira – José Aroldo da Silva;
Português: literatura, gramática e produção – Leila Lauar Sarmento e Douglas Tufano;
Prêmio Camões de Literatura – Biblioteca Nacional;
Rachel de Queiroz – Academia Brasileira de Letras;
Rachel de Queiroz: A Senhora do Não Me Deixes – Edmílson Caminha;
Romance e sociedade – Michel Zéraffa.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [UFT]

Leia o fragmento de texto para responder a questão a seguir.

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas.
– Mãezinha, cadê a janta?
– Cala a boca, menino! Já vem!
– Vem lá o quê!…
Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos… nem um triste vintém azinhavrado…
Lembrou-se da rede nova, grande e de listras que comprara em Quixadá por conta do vale de Vicente.
Tinha sido para a viagem. Mas antes dormir no chão do que ver os meninos chorando, com a barriga roncando de fome.
Estavam já na estrada do Castro. E se arrancharam debaixo dum velho pau-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer ao tempo, porque aqueles cepos apontados para o céu não tinham nada de abrigo.
O vaqueiro saiu com a rede, resoluto:
– Vou ali naquela bodega, ver se dou um jeito…
Voltou mais tarde, sem a rede, trazendo uma rapadura e um litro de farinha:
– Tá aqui. O homem disse que a rede estava velha, só deu isso, e ainda por cima se fazendo de compadecido…
Faminta, a meninada avançou; e até Mocinha, sempre mais ou menos calada e indiferente, estendeu a mão com avidez.
(QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1979, p. 33).

“O Quinze”, romance de estreia de Rachel de Queiroz, publicado em 1930, retrata a intensa seca que marcou o ano de 1915 no sertão cearense. Considerando o fragmento apresentado, é CORRETO afirmar:

a) Ainda que publicado no início da década de 30, momento de intensas mudanças políticas e culturais no país, o romance liga-se estética e tematicamente às propostas literárias da primeira geração modernista.
b) Na narrativa, estreitamente ligada às propostas de denúncia social dos regionalistas de 30, destacam-se o drama da seca, a miséria e a degradação humana, marcantes em cenas como a do fragmento citado.
c) Apesar de se referir à seca que marcou o ano de 1915, o romance coloca em primeiro plano a violência e o desrespeito que marcam as relações sociais, independente das condições climáticas; exemplo disso é a relação de espoliação entre Chico Bento e o homem da bodega.
d) A linguagem utilizada pela autora, para construir o romance, aproxima-se da oralidade, conforme se vê no fragmento. Tal recurso é utilizado para se contrapor à escrita extremamente rebuscada de alguns modernistas da primeira geração, como Oswald de Andrade.
e) O fragmento apresenta um discurso moralizante, recorrente nos romances da segunda geração modernista, e destaca o drama vivido pela família de Chico Bento, diante das dificuldades de sobrevivência.

Correta: b.

Justificativa: O romance regionalista de Rachel de Queiroz foca no período da seca de 1915 no Nordeste brasileiro (o título é uma alusão a isso), acompanhando uma família de retirantes e suas dificuldades relacionadas à fome e à miséria

2. [USC]

A seca é metáfora recorrente na literatura, especialmente no segundo período modernista. Assinale a alternativa correta em relação às obras que apresentam cenas que caracterizam a brutal realidade dos retirantes nordestinos.

a) O Quinze, de Rachel de Queiroz; Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
b) Menino de Engenho, de José Lins do Rego; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.
c) A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade; Os Sertões, de Euclides da Cunha.
d) Um Lugar ao Sol, de Érico Veríssimo; A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector.
e) Capitães da Areia, de Jorge Amado; Urupês, de Monteiro Lobato.

Correta: a.

Justificativa: Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz pertencem a segunda fase do Modernismo Brasileiro e possuem em comum a prosa regionalista. Vidas Secas e O Quinze são suas maiores obras relacionadas à seca.

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