Pepetela

Denúncia social, ancestralidade e libertação angolana: esses são alguns dos temas favoritos de Pepetela

Pepetela é um grande nome da literatura angolana. Muitas de suas obras foram publicadas após a independência de seu país e são permeadas por questões políticas e identitárias. Recebeu prêmios como o Prêmio Especial dos Críticos de São Paulo pelo livro A Geração da Utopia em 1993, e o Prêmio Camões pelo conjunto da sua obra em 1997.

Biografia

Visão

Antônio Carlos Maurício dos Santos (1941), também conhecido como Pepetela, nasceu em Angola. Ao fazer parte do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), seus posicionamentos políticos influenciaram não só seu modo de viver, mas também toda sua obra.

Chegou a ser exilado, vivendo na França e Argélia, e só retornou quando seu país conquistou a independência, em 1975. Após isso, assumiu cargos políticos e deu início à sua carreira literária.

A primeira publicação de Pepetela deu-se com o livro As aventuras de Ngunga (1973). Poucos anos depois, publicou seu livro mais famoso, Mayombe (1980). Suas narrativas têm como espaço central Angola. A história de seu país figura nos livros tanto antes quanto depois do processo de colonização, assim como o percurso em busca da independência e a guerra civil.

Características das obras de Pepetela

É possível observar nas obras de Pepetela que ele busca representar e reinterpretar a história de seu país por meio da ficção, assim como fizeram os escritores Mia Couto e Luandino Vieira.

Nas narrativas do autor angolano, observamos registros diversos, tais como: a presença da ancestralidade; a realidade cotidiana do povo; a oralidade, sobretudo dos mais velhos, figuras que resgatam mitos; e a natureza como meio para compreender o mundo.

Diante disso, nota-se ainda uma preocupação identitária que, segundo críticos, assume a característica de “escrita da nação”. E o que seria isso? Trata-se de uma construção narrativa que desconstrói o discurso oficial a fim de construir uma memória coletiva, reinventando Angola pelo viés da ficção.

Principais obras

O escritor publicou mais de 25 livros, dentre eles romances, peças e crônicas, todavia o foco de sua produção está nas narrativas mais longas. A seguir, comentaremos sobre dois romances especificamente, Mayombe e Predadores, mas também listaremos alguns outros de maior destaque.

Mayombe

O livro foi escrito enquanto Pepetela ainda participava da guerra da independência da Angola, mas foi publicado somente em 1980, quando o autor fazia parte do governo como vice-ministro da Educação. Nessa época, o país já era independente de Portugal.

De modo geral, o livro retrata com profundidade a vida dos combatentes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Eles lutavam tanto contra as tropas portuguesas no meio da floresta quanto contra as diferenças culturais e sociais dentro do grupo que almejava um país unido e livre da colonização.

O título é o nome da floresta na qual os guerreiros lutavam. Trata-se de uma região que compreende parte da República Democrática do Congo, Angola, Congo e Gabão.

Predadores

Publicado em 2005, o romance aborda sem idealizações a sociedade angolana mais atual, após a conquista da independência. Assim, mostra um país que não caminhou para uma direção sonhada pelos guerreiros e revolucionários do MPLA. Pelo contrário, deduz-se, sobretudo por meio do título, que foi construída uma sociedade de predadores.

A narrativa apresenta a trajetória de José Caposso, que não teve nenhuma participação política durante a guerra da independência, mas manipulou sua história, autointitulando-se um bravo revolucionário ligado ao MPLA. Quando lhe foi conveniente, inclusive, mudou seu nome para Vlademiro, dizendo que o nome dado pelo pai era uma homenagem a Lenin.

Ao longo da narrativa, mostra-se um homem corrupto que tenta aproximar-se de pessoas influentes e ricas para tirar proveito o máximo que pudesse, enquanto se posiciona como um ex-combatente. Tornou-se rico, enquanto os verdadeiros revolucionários mendigam nas ruas, muitas vezes estropiados e feridos pelo combate ou por terem pisado em minas. Nesse sentido, o romance tem forte caráter de denúncia social.

Outras obras de Pepetela

  • Muana Puó (1978);
  • O cão e os caluandas (1985);
  • Geração utopia (1992);
  • A montanha da água lilás (2000);
  • A sul. O sombreiro (2011);
  • Sua Excelência de corpo presente (2018) – Prémio Correntes de Escrita.

Além de conhecer algumas obras de Pepetela, saiba algumas curiosidades sobre esse renomado escritor angolano a seguir.

Curiosidades

Pepetela é um homem incomum, sobretudo pelo seu grande envolvimento com a política, tendo sido exilado, conforme dito anteriormente. Conheça mais curiosidades sobre o autor e sua produção literária.

  • Foi o primeiro autor angolano, segundo autor africano e o maior jovem escritor a ser premiado com o Prêmio Camões, em 1997, um dos maiores prêmios literários em nível internacional.
  • Após abandonar a militância política, optou pela carreira de docente na Faculdade de Arquitetura de Luanda, onde ministrava aulas de Sociologia. Nunca abandonou totalmente a área educacional, embora se mantenha como escritor em tempo quase integral.
  • Mayombe foi a primeira obra de língua portuguesa de origem africana, ou seja, fora do eixo Brasil-Portugal, a integrar a lista de obras obrigatórias do vestibular da Universidade de São Paulo (Fuvest).

É sempre bom saber algumas curiosidades sobre os escritores, sua vida e obra. Que tal agora ler trechos de obras literárias de Pepetela? Confira abaixo.

Cinco frases de obras de Pepetela

Separamos para você alguns trechos dos romances de Pepetela, principalmente de sua obra mais famosa no Brasil, Mayombe. Assim, poderá observar a linguagem e algumas questões políticas e sociais apresentadas nas narrativas do autor.

  1. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. (Trecho de Mayombe).
  2. Não há nada pior no homem que a falta de imaginação. (Trecho de Mayombe).
  3. Eu evoluo e construo uma nova pele. Há os que precisam de escrever para despir a pele que lhes não cabe já. Outros mudam de país. Outros de amante. Outros de nome ou de penteado. (Trecho de Mayombe).
  4. A dureza do diamante é uma ilusão: não é mais que gotas de suor esmagadas pelas toneladas de terra que o cobrem. (Trecho de Mayombe).
  5. No novo ano, o futuro continuava tão longe como no ano velho. (Trecho de O Tímido e as Mulheres).

Agora que você pôde observar a escrita do angolano Pepetela, confira alguns vídeos sobre suas produções literárias.

Vídeos sobre Pepetela e suas obras

Confira algumas falas acerca da literatura escrita em Língua Portuguesa, produções literárias de Pepetela e as críticas sociais existentes nelas.

Pepetela e literatura em Língua Portuguesa

Pepetela fala da literatura em Língua Portuguesa e, consequentemente, de sua própria produção.

Sobre o romance Mayombe

Nesse vídeo, você confere uma explanação acerca do enredo de Mayombe, leitura obrigatória da Fuvest.

As críticas sociais de Predadores

Conheca as críticas sociais existentes em Predadores e um pouco sobre a história das lutas políticas em Angola.

Agora que você já conhece Pepetela, bem como os temas mais discutidos em sua produção literária, aprofunde seus conhecimentos sobre literatura africana: Literatura Africana.

Referências

BENEDITO, Mousar. Pepetela e os predadores. Boitempo, 28 jan. 2014. Disponível em: . Acesso em: 05 ago. 2020.

LITERATURAS contemporâneas de língua portuguesa. Literatura: literatura contemporânea. 2. ed. São Paulo: FTD, 2018.

PRADO, Luiz. Em “Mayombe”, selva faz surgir o “homem novo” angolano. Jornal da USP, 11 out. 2018. Disponível em: . Acesso em: 05 ago. 2020.

Estela Santos
Por Estela Santos

Doutoranda em Letras - Estudos Literários (UEM), professora e mediadora do #LeiaMulheres - Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Santos, Estela Pereira dos. Pepetela. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/pepetela. Acesso em: 22 de September de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [FUVEST]

“O Comissário apertou-lhe mais a mão, querendo transmitir-lhe o sopro de vida. Mas a vida de Sem Medo esvaía-se para o solo do Mayombe, misturando-se às folhas em decomposição.
[…]
Mas o Comissário não ouviu o que o Comandante disse. Os lábios já mal se moviam.
A amoreira gigante à sua frente. O tronco destaca-se do sincretismo da mata, mas se eu percorrer com os olhos o tronco para cima, a folhagem dele mistura-se à folhagem geral e é de novo o sincretismo. Só o tronco se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe, os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante faz esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas, num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se afirma, debatendo-se. Tal é a vida.
[…]
Os olhos de Sem Medo ficaram abertos, contemplando o tronco já invisível do gigante que para sempre desaparecera no seu elemento verde” (Pepetela, Mayombe).
Considerando-se o excerto no contexto de Mayombe, os paralelos que nele são estabelecidos entre aspectos da natureza e da vida humana podem ser interpretados como uma
a. reflexão relacionada ao próprio Comandante Sem Medo e a seu dilema característico entre a valorização do indivíduo e o engajamento em um projeto eminentemente coletivo.
b. caracterização flagrante da dificuldade de aceder ao plano do raciocínio abstrato, típica da atitude pragmática do militante revolucionário.
c. figuração da harmonia que reina no mundo natural, em contraste com as dissensões que caracterizam as relações humanas, notadamente nas zonas urbanizadas.
d. representação do juízo do Comissário a respeito da manifesta incapacidade que tem o Comandante Sem Medo de ultrapassar o dogmatismo doutrinário.
e. crítica esclarecida à mentalidade animista que tende a personificar os elementos da natureza e ao tribalismo, ainda muito difundidos entre os guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Resposta correta: A

No trecho destacado, são estabelecidos aspectos da natureza e da vida humana, os quais podem ser observados a partir do dilema enfrentado pelo Comandante Sem Medo entre valorizar o indivíduo especificamente e engajar-se em um projeto coletivo e, portanto, abrangente.

2. [FUVEST]

Mayombe refere-se a uma região montanhosa em Angola, dominada por floresta pluvial densa, rica em árvores de grande porte, e localizada em área de baixa latitude (4º 40’S). Levando em conta essas características geográficas e vegetacionais, é correto afirmar que

a. esse tipo de vegetação predomina na maior parte do continente africano, circundando áreas de savana e deserto.
b. se trata da única floresta pluvial sobre áreas montanhosas, pois esse tipo de floresta não ocorre em outras áreas do mundo.
c. a vegetação da região é semelhante à da floresta encontrada, no Brasil, na mesma faixa latitudinal.
d. nessa mesma faixa latitudinal, no Brasil, há regiões áridas, de altas altitudes, em que predominam ervas rasteiras.
e. tais florestas pluviais só ocorrem no hemisfério sul, devido ao regime de chuvas e às altas temperaturas nesse hemisfério, onde ocupam todo tipo de relevo.

Resposta correta: C

Brasil e Angola são países que têm florestas muitos semelhantes, ricas em árvores de grande porte e, principalmente, na mesma faixa latitudinal, a saber: 4º 40’S.

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