Manuel Bandeira

Escritor da primeira fase modernista, Manuel Bandeira é conhecido pelos seus versos estilisticamente simples, mas carregados de significado.

Manuel Bandeira considerou-se um poeta menor. Entretanto, o escritor modernista não só escreveu ativamente durante seus anos de vida, como também produziu com qualidade e se tornou um dos maiores autores da literatura brasileira. Foi, por isso, um poeta maior.

Poemas, ensaios críticos, crônicas e materiais didáticos para o ensino superior demonstram a dinamicidade de sua produção. Neste texto, você conhecerá um pouco sobre a vida do autor, as características primordiais de sua obra e exemplos de sua poética.

Biografia: vida e obra

Manuel Bandeira
Manuel Bandeira em 1965. Fonte: Folhapress.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em 19 de abril de 1886, filho de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e Francelina Ribeiro de Sousa Bandeira. Aos dez anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e concluiu o bacharel em Letras em 1902. Já em 1903, iniciou os estudos em Arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, mas devido à tuberculose não concluiu o curso. Morou na Suíça entre 1913 e 1914, onde conheceu o poeta Paul Éluard. Ao retornar ao Brasil, iniciou sua carreira literária e publicou, em 1917, A cinza das horas e, em 1919, Carnaval, que marcou seu apreço pela liberdade rítmica.

Em 1922, o poema Os sapos, uma crítica ao movimento parnasiano, foi lido por Ronald de Carvalho durante a Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Já em 1930, ao publicar Libertinagem, consolida-se como uma das maiores vozes do Modernismo e conheceu diversos escritores paulistas que lançaram o movimento. Posteriormente, tornou-se professor de Literatura Universal no Externato do Colégio Pedro II e assumiu a cadeira de Literaturas Hispano-americanas na Faculdade Nacional de Filosofia.

Trabalhou como tradutor e foi autor de crônicas, publicando-as em diversos jornais. Recebeu prêmios da Sociedade Felipe d’Oliveira e do Instituto Brasileiro de Educação e Cultura, respectivamente, em 1937 e 1946. Bandeira também foi crítico literário e de artes plásticas e ocupou a cadeira vinte e quatro na Academia Brasileira de Letras, quando foi eleito membro em 1940. O escritor faleceu na capital fluminense em 13 de outubro de 1968, aos 82 anos.

Características da obra de Manuel Bandeira

Manuel Bandeira produziu muito em vida, desde poesia a ensaios críticos, e “criou uma obra absolutamente singular no contexto da literatura brasileira” (GONZAGA, 2009, p. 306). A principal marca da produção poética do autor é a simplicidade estilística, que em nenhum momento prejudica sua capacidade de capturar com sofisticação sua visão de mundo. Em A cinza das horas e Carnaval ainda há marcas simbolistas em seus poemas, mas com o avançar de sua carreira, adentrou plenamente no Modernismo e se tornou um dos mestres da poesia em verso livre da literatura brasileira.

As principais características da obra de Manuel Bandeira envolvem “uma fusão entre a confissão pessoal e a vida cotidiana” (GONZAGA, 2009, p. 307), isto é, há uma prática intimista em sua poesia, além de um tom autoirônico. Assim, o desejo insatisfeito, a evocação da infância, a tristeza da vida, a preparação para a morte e a temática social marcam sua produção literária.

  • O desejo insatisfeito: o autor, por causa da tuberculose, viveu uma vida limitada em termos de experiências amorosas. Por isso, em várias poesias é possível averiguar um caráter confessional, que assume, primordialmente, um clima erótico. Entretanto, ao contrário dos escritores românticos, a idealização amorosa de Bandeira é permeada pela consciência de estar em um ambiente artificial.
  • Evocação da infância: outro tema recorrente na poética de Manuel Bandeira é a lembrança constante de sua infância. “A memória recolhe amorosamente antigas vivências e as expressa em belos poemas” (GONZAGA, 2009, p. 309).
  • Tristeza da vida: se há diversas poesias leves no repertório do autor pernambucano, outras demonstram uma face melancólica ao olhar para o cotidiano, muitas vezes banal.
  • A relação com a morte: novamente, a tuberculose foi um marco na vida do autor, que mesmo com a condição viveu 82 anos. Assim, diversas poesias transpassam o sentimento de preparação para a inevitável morte.
  • Caráter social: característica menos frequente de Bandeira, de certa forma o autor era “alheio às tendências ideológicas da época […] apresenta os problemas sociais, sem propor uma solução” (GONZAGA, 2009, p. 311).

Manuel Bandeira, portanto, é um escritor dinâmico e que produziu muito ao longo de sua carreira, abordando diversas temáticas que podem ser relacionadas à vida do poeta.

Principais obras de Manuel Bandeira

Manuel Bandeira, além de poeta, trabalhou com tradução, crônicas, material didático para o ensino superior e ensaios críticos.

Poesia

  • A cinza das horas (1917)
  • Carnaval (1919)
  • Poesias (1924)
  • Libertinagem (1930)
  • Estrela da manhã (1936)
  • Poesias escolhidas (1937)
  • Poesia completas (1940)
  • Mafuá do malungo (1948)
  • Opus 10 (1952)

Prosa

  • Crônicas da Província do Brasil (1936)
  • Guia de Ouro Preto (1938)
  • A autoria das Cartas Chilenas (1940)
  • Noções de histórias das literaturas (1940)
  • Apresentação da poesia brasileira (1944)
  • Oração de paraninfo (1946)
  • Literatura hispano-americano (1949)
  • Gonçalves Dias (1952)
  • De poetas e de poesia (1954)

Antologias

  • 50 poemas escolhidos pelo autor (1955)
  • Poesias completas (1955)
  • Obras poéticas (1956)

Acima estão listadas as principais obras de Manuel Bandeira. O autor também fez levantamentos de períodos anteriores ao Modernismo, como Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica (1937) e Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana (1938).

Poemas marcantes de Bandeira

A produção poética de Manuel Bandeira foi extensa. Em O bicho, por exemplo, há a presença de temática social; enquanto isso, em Os sapos, poema declamado na Semana de Arte Moderna, há uma crítica ao movimento parnasiano.

Pasárgada, por sua vez, possui um deslumbre da infância do autor e uma saudade proeminente em cada verso. Já o famoso Pneumotórax pode ser relacionado à vida sob a condição da tuberculose, que possivelmente privou o autor de certas experiências.

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

[…]

Os sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
– “Meu pai foi à guerra!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”

[…]

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

………………………………………………………………………………………

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Cada um dos poemas citados consegue definir uma característica primordial de Manuel Bandeira.

Conteúdos em vídeo sobre Manuel Bandeira

A vida e obra de Manuel Bandeira são extensas em valor e em fatos históricos. Para compreender melhor sobre o autor e o período literário que ele estava inserido, assista aos vídeos abaixo.

Primeira fase modernista

Neste vídeo, você poderá se aprofundar sobre os detalhes da primeira fase do Modernismo brasileiro, suas principais características e seus principais autores.

Manuel Bandeira no ENEM

Neste vídeo, há uma breve explicação sobre as características da obra de Manuel Bandeira e a análise de uma questão do ENEM. Nela são abordados diversos elementos da produção literária do autor.

Sobre a vida e obra de Manuel Bandeira

Em um dos capítulos do programa Ciência e Letras, exibido originalmente em 15 de dezembro de 2014, houve uma conversa abordando a vida e a poética de Manuel Bandeira.

Portanto, Manuel Bandeira consiste em um dos principais poetas do Modernismo brasileiro e da literatura nacional. Seus temas, seus versos livres carregados de sentimento e sua ironia marcam uma produção poética riquíssima e que deve ser sempre revisitada.

Referências

A literatura no Brasil: era modernista – Afrânio Coutinho e Eduardo de Faria Coutinho;
Curso de literatura brasileira – Sergius Gonzaga;
História concisa da literatura brasileira – Alfredo Bosi;
Manuel Bandeira – Academia Brasileira de Letras.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [UNIFESP]

Sobre Manuel Bandeira, é correto afirmar que:
a) a insistência em temas relacionados ao sonho e à fantasia aponta para uma concepção de vida fugidia e distanciada da realidade. Dessa forma, entende-se o poeta na transição entre o Realismo e Modernismo.
b) sua obra é muito pouco alinhada ao Modernismo, pois sua expressão exclui por completo a linguagem popular, priorizando a erudição e a contenção criadora.
c) o desapego aos temas do cotidiano o aponta como um poeta que, embora inserido no Modernismo, está muito distanciado das causas sociais e da busca de uma identidade nacional, como fizeram seus contemporâneos.
d) o movimento modernista teve com seu trabalho e com o de poetas como Oswald e Mário de Andrade a base de sua criação. Bandeira recriou literariamente suas experiências pessoais, com temas como o amor, a morte e a solidão, aos quais conferiu um valor mais universal.
e) o poeta trata de temas bastante recorrentes ao Romantismo, como a saudade, a infância e a solidão. Além disso, expressa-se como os românticos, já que tem uma visão idealizada do mundo. Daí seu distanciamento dos demais modernistas da primeira fase.

Correta: d.
Justificativa: Manuel Bandeira foi um poeta que, por meio de seus versos livres e estilisticamente mais simples, conseguiu capturar sua vivência e seus anseios. Abordou em suas poesias desde o desejo insatisfeito em termos amorosos à infância vista com saudosismo.

2. [FUVEST]

Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos

(…)

Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totânio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
(Manuel Bandeira, Libertinagem)

No conhecido poema de Bandeira, aqui parcialmente reproduzido, a experiência do afastamento da festa de São João:
a) é de ordem subjetiva e ocorre, primordialmente, no plano do sonho e da imaginação.
b) reflete, em chave saudosista, o tradicionalismo que caracterizou a geração modernista de 1922.
c) se dá predominantemente no plano do tempo e encaminha uma reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas.
d) assume feição abstrata, na medida em que evita assimilar os dados da percepção sensível, registrados pela visão e pela audição.
e) é figurada poeticamente segundo o princípio estético que prevê a separação nítida de prosa e poesia.

Correta: c.
Justificativa: No poema é possível averiguar o uso de advérbios de tempo e verbos no pretérito imperfeito do indicativo, o que juntamente com a descrição das cenas, indicam a dinâmica de transição entre os eventos na vida. As demais estão incorretas, pois o poema não é objetivo; a geração modernista não é marcada pelo tradicionalismo; por mais que o poema não seja objetivo, ele também não assume uma face abstrata; e seu caráter figurado não se deve necessariamente por ser poesia, a prosa também pode possuir tal característica.

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