Revolução Farroupilha

Insatisfeitos com o centralismo político, os estancieiros gaúchos protagonizaram a mais extensa revolta provincial do século XIX.

Após a abdicação (renúncia) de D. Pedro I ao trono do Brasil, teve início o Período Regencial (1831-1840). Entre os principais fatos que marcaram esse período da História do Brasil, constam as revoltas provinciais, tais como Balaiada (MA), Cabanagem (PA), Sabinada (BA), Malês (BA) e Farroupilha (RS). As motivações para a eclosão dessas revoltas foram diversas, não assumindo relação entre uma província e outra. A Revolução Farroupilha (1835-1845) foi a revolta provincial mais extensa, sendo finalizada após cinco anos de vigência do Segundo Reinado.

Cena do filme “Anahy de las missiones”  que aborda de forma poética, dramática  e lúdica episódios lendários da Revolução Farroupilha. Foto: Reprodução.
Cena do filme “Anahy de las missiones” que aborda de forma poética, dramática e lúdica episódios lendários da Revolução Farroupilha. Foto: Reprodução.

1. Fatores da Revolução Farroupilha

No Rio Grande do Sul (RS), os estancieiros que se dedicavam à criação de gado voltado principalmente para a produção de charque (carne bovina seca ou salgada), sendo ela a principal atividade econômica da província, estavam se sentindo prejudicados pelas reduzidas taxas protecionistas sobre o charque dos países platinos, em especial, o do Uruguai. Essa redução das taxas, determinada pelo governo central, tornava o preço do charque do Rio Grande do Sul semelhante ou elevado perante o charque uruguaio.

Os estancieiros arrastavam junto a si seus empregados e dependentes para lutarem num movimento em torno de causas alheias aos horizontes dessas camadas dominadas (VALLE, 2011, p. 3).

Somado à crise do charque, os estancieiros gaúchos estavam insatisfeitos com o centralismo político, ao passo que defendiam uma autonomia política e administrativa.

2. A Proclamação de duas Repúblicas

Perante a recusa do governo em atender às exigências dos estancieiros do Rio Grande do Sul, ocorreu a eclosão da Revolução Farroupilha, também chamada de Guerra dos Farrapos. A origem do nome tem como uma de suas hipóteses a adesão do grupo político dos liberais exaltados, também conhecidos como farroupilhas, ao movimento revolucionário gaúcho. Essa explicação evita o engano em acreditar que o movimento era constituído por farrapos, pois pelo contrário, foi um movimento formado pela elite.

A liderança do movimento contou com Bento Gonçalves, Davi Canabarro e Giuseppe Garibaldi, sendo esse último, conhecido como herói de dois mundos, por ter participado da Guerra de Unificação da Itália e da Revolução Farroupilha.

Em 1835, Bento Gonçalves liderou um movimento que tomou a capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. No ano seguinte, os rebeldes proclamaram a República de Piratini, ou República Rio-Grandense. O nome Piratini deve-se a uma pequena cidade que se tornou capital da República recém-implantada.

Painel feito pelo artista plástico Guido Mondin representando a Revolução Farroupilha. Foto: Assembléia Legistativa do RS
Painel feito pelo artista plástico Guido Mondin representando a Revolução Farroupilha. Foto: Assembléia Legistativa do RS

Em 1839, no mês de Julho, Santa Catarina foi tomada pelos rebeldes, que fundaram a República Juliana, tendo como comandantes Davi Canabarro e Giuseppe Garibaldi. O nome dessa República foi uma alusão ao mês em que foi instituída.

3. O fim da Revolução

Luís Alves de Lima e Silva – que na época ainda era Barão de Caxias, sendo posteriormente Duque de Caxias, a serviço do governo imperial, começou, a partir de 1842, a liderar um maior combate aos farroupilhas. Em 1845, um acordo foi estabelecido entre o governo de D. Pedro II e os rebeldes gaúchos. Com o nome de Paz de Ponche Verde, estabelecia:

  1. Anistia aos rebeldes pelo governo imperial;
  2. Poder de escolha aos farroupilhas para escolher o presidente da província do Rio Grande do Sul;
  3. Perdão das dívidas dos revoltosos;
  4. A incorporação dos oficiais do Exército farroupilha ao Exército imperial com as mesmas patentes;
  5. Instituição da taxa de 25% ao charque platino;
  6. Alforria aos escravos que lutaram ao lado dos farroupilhas.

A Revolução Farroupilha chegou ao fim de forma bastante distinta em relação às demais revoltas provinciais. Ao passo que outras revoltas foram sufocadas através de massacres, a Guerra dos Farrapos chegou ao fim mediante um acordo firmado entre o governo imperial e os rebeldes. Pretendendo ou não, a elite gaúcha inspirou ideais separatistas no Rio Grande do Sul, tornando a Revolução Farroupilha uma das principais guerras civis que existiram no Brasil.

Referências

VALLE, H. S. Educação em Farrapos: A imprensa na construção do ensino rio-grandense. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, p. 1-11, São Paulo, julho, 2011.

Adelino Francklin
Por Adelino Francklin

Graduado em História (UNIFEG), Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira (FINOM) e Mestrando em Educação (CUML)

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1. [UNESP/2013] A Revolução Farroupilha foi um dos movimentos armados contrários ao poder central no Período Regencial brasileiro (1831-1840). O movimento dos Farrapos teve algumas particularidades, quando comparado aos demais.

Em nome do povo do Rio Grande, depus o governador Braga e entreguei o governo ao seu substituto legal Marciano Ribeiro. E em nome do Rio Grande do Sul eu lhe digo que nesta província extrema […] não toleramos imposições humilhantes, nem insultos de qualquer espécie. […] O Rio Grande é a sentinela do Brasil, que olha vigilante para o Rio da Prata. Merece, pois, maior consideração e respeito. Não pode e nem deve ser oprimido pelo despotismo. Exigimos que o governo imperial nos dê um governador de nossa confiança, que olhe pelos nossos interesses, pelo nosso progresso, pela nossa dignidade, ou nos separaremos do centro e com a espada na mão saberemos morrer com honra, ou viver com liberdade (Bento Gonçalves [carta ao Regente Feijó, setembro de 1835] apud Sandra Jatahy Pesavento. A Revolução Farroupilha, 1986).

Entre os motivos da Revolução Farroupilha, podemos citar:

a) o desejo rio-grandense de maior autonomia política e econômica da província frente ao poder imperial, sediado no Rio de Janeiro.
b) a incorporação, ao território brasileiro, da Província Cisplatina, que passou a concorrer com os gaúchos pelo controle do mercado interno do charque.
c) a dificuldade de controle e vigilância da fronteira sul do império, que representava constante ameaça de invasão espanhola e platina.
d) a proteção do charque rio-grandense pela Corte, evitando a concorrência do charque estrangeiro e garantindo os baixos preços dos produtos locais.
e) a destruição das lavouras gaúchas pelas guerras de independência na região do Prata e a decorrente redução da produção agrícola no Sul do Brasil.

2. [UFSJ/2013]  “Entretanto, a revolta não uniu toda a população gaúcha. Ela foi preparada por estancieiros da fronteira e algumas figuras da classe média das cidades, obtendo apoio principalmente nesses setores sociais. Eles pretendiam acabar com a taxação de gado na fronteira com o Uruguai ou reduzi-la, estabelecendo a livre circulação dos rebanhos que possuíam nos dois países […]. Nas fileiras dos revoltosos, destacaram-se pelo menos duas dezenas de revolucionários italianos refugiados no Brasil, sendo o mais célebre deles Giuseppe Garibaldi” (FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003, p. 169).

O texto refere-se a um dos períodos mais agitados da história política do país, pois estavam em jogo a unidade nacional, a centralização e a descentralização do poder, a autonomia das províncias e a organização das forças armadas. A passagem descreve a revolta da:

a) Cabanagem.
b) Baianada.
c) Sabinada.
d) Farroupilha.

1. [A]

A Revolução Farroupilha teve entre as suas principais motivações a busca por maior autonomia da província frente ao governo central. Essa autonomia era desejada porque a elite gaúcha sentia-se prejudicada economicamente devido aos altos impostos e favorecimento do charque platino em detrimento do charque gaúcho.

2. [D]

A Revolta ou Revolução Farroupilha colocou a centralização estatal, a unidade nacional em risco representar a maior revolta provincial do Período Regencial. Entre os objetivos do movimento constava a autonomia provincial, tendo ela proclamado duas repúblicas independentes, sendo ela a Juliana e a de Piratini.

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