Mito da Caverna

O Mito da Caverna é uma das mais famosas alegorias platônicas que separa o conhecimento entre o falso e aquele que é verdadeiro.

O Mito da Caverna, chamado também de parábola ou alegoria da caverna, foi escrito por Platão no século IV a.C., e está contido no livro A República. Neste texto, o filósofo, inspirado em diálogos que tinha com Sócrates, faz uma metáfora sobre como as pessoas permanecem alienadas no mundo, sem conhecer a verdade. Abaixo, saiba mais acerca dessa reflexão.

O Mito da Caverna

Quadrinho ilustrando o Mito da Caverna
Parte do quadrinho “As Sombras da Vida”, de Maurício de Sousa. Confira o quadrinho completo.

O Mito da Caverna é narrado por Sócrates a um outro homem, Glauco: dentro de uma caverna, havia alguns indivíduos presos por correntes que impediam o movimento do pescoço. Embora ao fundo existisse uma saída, essas pessoas não podiam se mover.

Todo o tempo, os indivíduos presos eram obrigados a olhar para uma parede. Ainda no fundo da caverna, havia uma fogueira que iluminava o local; atrás dela, pessoas que não estavam presas e animais de toda a espécie passavam, formando uma sombra com a luz da fogueira que projetava figuras na parede.

Consequentemente, as pessoas que estavam presas viam na parede, todos os dias, desde o seu nascimento, as figuras projetadas por aqueles que viviam lá fora. No entanto, como elas nunca haviam saído da caverna e só conheciam aquele cenário, pensavam que essa era a própria realidade.

Contudo, Sócrates supõe então que, um dia, um dos indivíduos consegue escapar e ir para fora. Acostumado com a escuridão da caverna, ele terá dificuldades de enxergar sob a luz do sol. Somente aos poucos conseguirá entender que tudo o que via desde o seu nascimento era uma ilusão, e o que havia lá fora era a verdade.

Então, se esse indivíduo voltasse para a caverna e contasse o que viu lá fora, o que poderia acontecer? As demais pessoas, que nunca saíram de lá, poderiam considerá-lo louco ou mentiroso. Além disso, achariam mais confortável continuar vivendo ali, na escuridão, do que se submeter à luz.

Elementos e interpretação do mito

Platão, que escreveu o mito, é considerado um dos representantes de uma vertente da filosofia chamada idealismo. Portanto, no Mito da Caverna, ele também pretendia defender seu ponto de vista a respeito do que ele considerava a realidade.

Assim, como qualquer alegoria, essa história é feita de metáforas sobre aquilo que o autor queria dizer. Nesse sentido, o que são as correntes no Mito da Caverna? O que são as sombras? O que é o mundo exterior? A seguir, entenda sobre o que cada elemento simboliza:

  • Prisioneiros: à princípio, são a representação de qualquer indivíduo que vive com os conhecimentos advindos do seu dia-a-dia e da tradição, e não com o saber verdadeiro.
  • Correntes: são tudo o que nos prende ao falso conhecimento das coisas, a ignorância e o senso comum.
  • Sombras: é o falso conhecimento, ou seja, meras projeções da verdade – elas podem ser confortáveis e fornecer uma ilusão ao indivíduo sobre o mundo.
  • Mundo exterior: é o mundo superior onde é possível obter o conhecimento verdadeiro, tirando a humanidade da ignorância.
  • Luz: é a racionalidade e a própria verdade que, por mais que possa ser difícil de enxergar em um primeiro momento, é com ela que será possível obter um saber real sobre o mundo.

Assim, existem muitas interpretações possíveis para o Mito da Caverna. Entre as várias, um dos pontos consensuais é que Platão faz uma distinção entre o conhecimento que é falso e aquele que é verdadeiro. Conforme a alegoria, várias pessoas vivem “dentro da caverna”, ou seja, na ignorância.

Esse campo do falso saber é o mundo sensível, onde as pessoas simplesmente apreendem aquilo que vivem em sua experiência pessoal. Ao contrário, o mundo inteligível ou mundo das ideias, que é superior, é aquele que mostra o conhecimento verdadeiro, essencial e imutável.

Outro ponto importante é que a obra em que está a alegoria é A República, de Platão. Nesse livro, o autor fala sobre as diversas formas de governo. Sendo assim, com o mito, o filósofo também abordava sobre a educação necessária àqueles que participassem da política.

O Mito da Caverna nos dias de hoje

Ao falar sobre o mundo sensível e o mundo inteligível, Platão descreve também sua filosofia idealista. Em outras palavras, o filósofo defende que o verdadeiro conhecimento está acima do senso comum e do que aprendemos pelos sentidos – ele está, na verdade, no mundo das ideias.

No entanto, atualmente, o Mito da Caverna tem servido como uma metáfora principalmente para aquilo que é chamado de “escravidão voluntária”, ou o fenômeno do “escravo feliz”. Um dos exemplos mais comuns é a relação atual da sociedade com a tecnologia.

Assim, é como se as pessoas permanecessem na ignorância ao se prender às informações que são veiculadas nas redes sociais e nos aplicativos. Assim como no Mito da Caverna, quando são chamadas a contemplar alguma verdade diferente do que conhecem, elas se negam e preferem continuar na “caverna”.

No entanto, essa é uma interpretação simples e reduzida da realidade. Portanto, é importante conhecer essa e outras leituras possíveis da alegoria para discutir a respeito.

Vídeos sobre a filosofia do Mito da Caverna

Para entender a filosofia por detrás do Mito da Caverna, é necessário expandir o assunto para seu contexto – o próprio Platão, o seu pensamento, e as interpretações possíveis da alegoria. Assim, veja abaixo uma seleção de vídeos que tratarão desse assunto:

Para começar: Platão

Platão é considerado um dos autores mais importantes da filosofia ocidental, e suas reflexões permaneceram – ou ainda permanecem – como uma questão a ser trabalhada por essa disciplina. Por essa razão, entenda mais sobre o filósofo e suas ideias.

Sobre A República

A alegoria descrita neste texto faz parte da conhecida obra platônica: A República. Nela, o autor descreve diferentes formas de governo. Dessa forma, é importante conhecer o contexto do livro para compreender sobre o Mito da Caverna de formas mais próximas do que Platão pensou.

O Mito da Caverna

No vídeo acima, confira a uma explicação breve e uma revisão sobre o mito. De fato, com imagens, a interpretação a respeito da alegoria acaba também variando, dando um outro tom para a narrativa.

Uma interpretação da alegoria

Sobretudo, existem diversas leituras possíveis sobre o mito de Platão. Veja, no vídeo, uma discussão mais detalhada e aprofundada do assunto, falando sobre cada elemento simbólico que o autor deixou para reflexão.

Filmes sobre o Mito da Caverna

Para uma discussão mais ampliada da alegoria, é possível conferir algumas produções cinematográficas que podem atualizar o mito escrito por Platão no ano IV a.C. Desse modo, saiba mais sobre pelo menos 3 dicas de filmes que fazem uma analogia com essa ideia.

Logo, o Mito da Caverna de Platão acabou se tornando uma de suas reflexões mais conhecidas. A partir dele, é possível ingressar em outras ideias do autor – inclusive, outros mitos escritos por ele que versavam sobre outras temáticas.

Referências

A República – Platão;

O Mito da Caverna de Platão no imaginário dos professores de filosofia do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Maranhão – José Antonio Pinheiro Junior;

O Mito da Caverna projetado no Admirável Mundo Novo: a escravidão tecnológica – Celso Augusto Nunes da Conceição; Valdnei Martins Ferreira.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Como referenciar este conteúdo

Oka, Mateus. Mito da Caverna. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/mito-da-caverna. Acesso em: 04 de July de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [PUC]

No livro VII da República, Platão apresenta o célebre mito (ou alegoria) da caverna. Pode-se afirmar que com esse mito ele pretendia:
a) demonstrar que a democracia não é um bom sistema de governo.
b) provar a imortalidade da alma humana.
c) mostrar que os cidadãos são geralmente injustos com aqueles que querem ser justos.
d) esclarecer algumas questões sobre a importância da educação dos filósofos, que viriam a ser no futuro, os governantes da cidade justa.

Resposta: d

Justificativa: o Mito da Caverna fazia parte do livro A República, tendo Platão se preocupado com as questões governamentais e políticas de sua cidade.

2. [UEM]

“Sócrates: Imaginemos que existam pessoas morando numa caverna. Pela entrada dessa caverna entra a luz vinda de uma fogueira situada sobre uma pequena elevação que existe na frente dela. Os seus habitantes estão lá dentro desde a infância, algemados por correntes nas pernas e no pescoço, de modo que não conseguem mover-se nem olhar para trás, e só podem ver o que ocorre à sua frente. (…) Naquela situação, você acha que os habitantes da caverna, a respeito de si mesmos e dos outros, consigam ver outra coisa além das sombras que o fogo projeta na parede ao fundo da caverna?”. (PLATÃO. A República [adaptação de Marcelo Perine]. São Paulo: Editora Scipione, 2002. p. 83).
Em relação ao célebre mito da caverna e às doutrinas que ele representa, assinale as questões corretas.
01) É uma característica essencial da filosofia de Platão a distinção entre mundo inteligível e mundo sensível; o primeiro ocupado pelas Idéias perfeitas, o segundo pelos objetos físicos, que participam daquelas Idéias ou são suas cópias imperfeitas.
02) O mito da caverna faz referência ao contraste ser e parecer, isto é, realidade e aparência, que marca o pensamento filosófico desde sua origem e que é assumido por Platão em sua famosa teoria das Idéias.
04) No mito da caverna, Platão pretende descrever os primórdios da existência humana, relatando como eram a vida e a organização social dos homens no princípio de seu processo evolutivo, quando habitavam em cavernas.
08) O mito da caverna simboliza o processo de emancipação espiritual que o exercício da filosofia é capaz de promover, libertando o indivíduo das sombras da ignorância e dos preconceitos.
16) No mito da caverna, o prisioneiro que se liberta e contempla a realidade fora da caverna, devendo voltar à caverna para libertar seus companheiros, representa o filósofo que, na concepção platônica, conhecedor do Bem e da Verdade, é o mais apto a governar a cidade.

Resposta: 01 + 02 + 08 + 16 = 27

Justificativa: a preocupação do Mito da Caverna é filosófica, e não histórica. Nela, Platão descreve seu idealismo e o processo de libertação que envolve alcançar o conhecimento verdadeiro, bem como sua função política.

3. [UDESC]

O texto é parte do livro VII da República, obra na qual Platão desenvolve o célebre Mito da Caverna. Sobre o Mito da Caverna, é correto afirmar.
I. A caverna iluminada pelo Sol, cuja luz se projeta dentro dela, corresponde ao mundo inteligível, o do conhecimento do verdadeiro ser.
II. Explicita como Platão concebe e estrutura o conhecimento.
III. Manifesta a forma como Platão pensa a política, na medida em que, ao voltar à caverna, aquele que contemplou o bem quer libertar da contemplação das sombras os antigos companheiros.
IV. Apresenta uma concepção de conhecimento estruturada unicamente em fatores circunstanciais e relativistas.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.
b) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas II e III são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas I e IV são corretas.

Resposta: c

Justificativa: o conhecimento para Platão não é relativista nem circunstancial, pois a verdade está unicamente no mundo das ideias; esse é também o mundo inteligível, aquele que está fora da caverna, no mito.

4. [UFPE]

Em qual diálogo está o Mito da Caverna?
a) República
b) Neméia
c) Menón
d) Protágoras

Resposta: a

Justificativa: Platão conduz suas reflexões por meio de diálogos. A obra em que se encontra o Mito da Caverna é A República.

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