Narratologia

Teoria da narrativa que examina o que elas têm em comum (ou não) procurando identificar os sistemas específicos de regras que as compõe.

O nascimento da narratologia é atribuído a alguns estudiosos como Tororov, Barthes e, principalmente, Genette no fim da década de 1960, advindo dos estudos do estruturalismo e da semiótica tornando-se, então um importante instrumento de análise formal da narrativa.

“A narratologia exemplifica a tendência estruturalista para considerar os textos (no sentido amplo do termo) como maneiras regro governadas com que os seres humanos (re)modelam seus universos. Ela exemplifica, portanto, a ambição estruturalista de isolar as necessárias e opcionais componentes de tipos textuais e caracterizar o modo de suas articulações.“ (PRINCE, 2009)

Embora citem várias regras e meios de se estudar um texto a fim de separá-lo por gênero textual, podemos dizer que algumas características principais estão presentes nessas narrativas: agente narrativo, atores, história, fábula, tempo, lugar e acontecimento. Resumindo, podemos dizer que a narratologia aborda o estudo da ficção e da não- ficção por meio das características citadas acima.

Primeiro de tudo devemos pensar nos diversos tipos de história e nas diversas formas de contá-la, seja ela falada, escrita, por meio de imagens, atuações, histórias em quadrinhos e até mesmo pela música. A narratologia estuda a história dessas histórias, a história por trás da atuação, da narração, da leitura etc, o quê, em vez de como, seu significado.

“A narrativa não faz ver, não imita; a paixão que nos pode inflamar à leitura de um romance não é a de uma “visão” (de fato, não “vemos” nada), é a da significação, isto é, de uma ordem superior da relação, que possui, ela também, suas emoções, suas esperanças, suas ameaças, seus triunfos: “o que se passa” na narrativa não é do ponto de vista referencial (real), ao pé da letra, nada; “o que acontece” é a linguagem tão-somente, a aventura da linguagem.” (Wink apud Barthes, 2007)

Gérard Genette atribuiu ao estudo da narrativa três principais tópicos: o tempo narrativo, o modo narrativo e a voz narrativa, que resumimos aqui:

1. Tempo narrativo

O tempo do discurso – a forma com que o narrador apresenta os acontecimentos e o tempo da história – o modo cronológico como as coisas acontecem nessa história.

1.1. Ordem temporal: os acontecimentos podem ser lineares ou não, respectivamente chamados de relato linear e relato fragmentado e, quando ocorre um “vai e vem” na história, chamamos anacronia.

1.2. Duração: a relação de tempo entre os acontecimentos dentro da história, que é impossível de ser medido, de acordo com Genette, pois varia de leitor para leitor.

1.3. Frequência: faz referência à repetição, acontecimentos idênticos ou o mesmo acontecimento ocorrido várias vezes (como o nascer do sol). É dividida entre narrativa singulativa, repetitiva e iterativa.

2. Modo narrativo

2.1. Focalização: o ângulo de vista do narrador, dividida em três partes:

a) Focalização zero: quando chamamos de narrador onisciente, que conhece os sentimentos mais íntimos dos personagens, podemos dizer que, nesse caso, o narrador conhece mais do que os próprios personagens.

b) Focalização interna: o narrador capta seu relato de acordo com um dos personagens (geralmente o principal, como em Madame Bovary, por exemplo). A focalização interna se totaliza quando há monólogos internos.

c) Focalização externa: o narrador conhece apenas o que os personagens mostram e falam.

2.2. Distância: Dividida entre relato de acontecimentos e relato de palavras:

a) Relato de acontecimentos
– Mimesis: o narrador dá voz aos personagens, dando ao leitor impressão de proximidade.
– Diegesis: o narrador falar por si mesmo, parecendo mais distante.

b) Relato de palavras
– Discurso narrativizado: é o mais distante ao leitor, pois o narrador apenas menciona algo que falou.
– Discurso transposto: conta as falas dos personagens de forma indireta.
– Discurso relatado ou reportado: o narrador apenas introduz a fala do personagem.

3. Voz narrativa

Também chamada de níveis diegéticos, é dividida em três níveis de narração:

a) Extradiegético: quando o emissor é o narrador, vendo a história de fora, e o receptor é o narratário.

b) Intradiegético: aqui o emissor não é apenas o narrador, mas um personagem, e o narratário deixa de ser o leitor e passa, também, a ser um personagem.

c) Metadiegético: uma narração dentro da narração, um personagem contando uma história a outro personagem.

3.1. Tempo de narração

a) Narração ulterior: narrativa no passado, algo que já terminou.

b) Narração anterior: relatos proféticos, sonhos que dão conhecimento do que acontecerá.

c) Narração simultânea: história contada no presente.

d) Narração intercalada: é fragmentadas, com vários tempos de ação.

Referências

REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria narrativa. São Paulo: Ática, 2000.
WINK, Otto Leopoldo. Aventuras da linguagem: princípios da narratologia genettiana aplicados à obra de Jamil Snege, 2007.
GONZAGA, Braulio R. Alvarez. Terminología de Gérard Genette.

Bárbara Neves
Prof. Bárbara Neves

Graduada em Letras Português - Licenciatura (UEM)

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1. [ENEM /2013] Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. […] Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré- história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. […] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (fragmento).

A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador

a) Observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante, sendo indiferente aos fatos e às personagens.
b) Relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a compõem.
c) Revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso.
d) Admite a dificuldade de escrever uma história em razão da complexidade para escolher as palavras exatas.
e) Propõe-se a discutir questões de natureza filosófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção.

1. [C]
A peculiaridade da voz narrativa de Clarice Lispector aparece neste fragmento em um sujeito que, com a visão crítica da linguagem, em vez de narrar, tece reflexões sobre questões existenciais (como se estivesse em crise), quando diz “Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever” e sobre a própria construção do discurso, como texto, quando diz “como eu irei dizer agora, esta história…”

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