Messianismo

Movimento social e religioso que crê em um Paraíso Eterno sempre conduzido por um líder espiritual. No Brasil, o messianismo também teve seu espaço.

O messianismo pode ser compreendido como uma crença na vinda de um messias, que anuncia e instaura uma época de felicidade e justiça.

Essa ideia vincula-se a uma tradição judaico-cristã inscrita no ideal de povo escolhido e representa, em parte, àqueles movimentos populares de cunho religioso que ocorreram no Brasil nas últimas décadas do século XIX início do século XX.

Uma relação aparente que une esses movimentos, além das questões sociais, é o forte senso de coletividade, na medida em que sobrepuja as individualidades em nome do bem comum, envolvendo sempre a história e as necessidades do coletivo, na transformação da terra para todos e não para um só homem. O forte senso comunitário forma uma irmandade com leis próprias que reduzir as desigualdades.

O elemento religioso é outra característica, conectado nessas contestações sociais se encontra a questão do divino e conduz a crença em um messias, que assim como nos textos bíblicos, trará um tempo de paz e prosperidade ao povo.

O messias é alguém enviado por uma divindade para trazer a vitória do bem sobre o mal, ou pra corrigir a imperfeição do mundo, permitindo o advento do Paraíso terrestre, tratando-se, pois de um líder religioso e social.

Movimentos messiânicos no Brasil

No decorrer da Primeira República no Brasil (1889 – 1930), ocorreram movimentos sociais de contestação à ordem estabelecida, que se deram, em certa medida, ao avanço da propriedade produtiva no campo, à consolidação do poder dos coronéis e ao surgimento do “colonato”, acrescido das reformas urbanas e do fim da escravidão.

Imagem: Reprodução

Diante do aprofundamento dessas contradições, o Brasil se tornou cenário profícuo ao surgimento de contestações populares. Em diversas regiões do o messianismo se insere nesse contexto como forma de reivindicações sociais e políticas, acrescidas, do elemento religioso.

Canudos: (1895 – 1897)

Durante o governo de Prudente de Moraes, ocorreu uma das mais sérias revoltas dos primeiros momentos da República. Canudos, Bahia, deixou clara as mazelas da população rural nordestina , bem como o descaso e o desprezo das autoridades para com elas.

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A crise financeira do inicio da República agravou a situação já miserável do sertão nordestino. O Quadro era propício aos surgimentos de discursos messiânicos como os de Antonio Conselheiro, que procurava consolar os sofredores com a crença de que chegaria o dia da justiça divina.

Conselheiro fundou uma comunidade agrária no sertão baiano que, no seu auge, reuniu em torno de vinte mil pessoas. O local ficou conhecido como Arraial de Canudos ou Arraial do Belo Monte.

A comunidade vivia em harmonia sob o comando místico do messias Conselheiro. O Sucesso da experiência desagradava os latifundiários, que viam diminuir a mão-de-obra barata, até então abundante naquela região.

Canudos tornava-se um fator de risco para a estrutura centenária de mando e de exploração, que havia sido criada na área rural brasileira. Varias expedições militares tentaram destruir o Arraial.

Foi necessária uma armada com quinze mil soldados para vencer os sertanejos que não lutavam apenas pela sua aldeia, lutavam, sobretudo, por um ideal, por uma forma de vida sem opressão e miséria.

O Contestado (1912 – 1916)

A exemplo de Canudos, o conflito do Contestado demonstrou a preferência das autoridades pelo interesse dos grupos econômicos dominantes.

Localizada na divida com Paraná e Santa Catarina, a região do Contestado foi povoada por frentes pioneiras dedicadas à extração de madeira e erva-mate. Por volta de 1840, formou-se ali um povoado liderado por um beato chamado João Maria.

No final do século XIX, chegou à região a empresa norte-americana Brazil Railway, com propósito de construir uma ferrovia ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul e para tal, expulsou das terras milhares de posseiros e pequenos proprietários. O conflito estava armado.

Nesse ambiente de revolta surgiu um novo líder messiânico, o gaúcho Miguel Lucena de Boaventura, que se dizia herdeiro espiritual do beato João Maria, e por isso, adotou o nome de José Maria. Seu ideário pregava a justiça divina a favor dos explorados e incentivava a alegria de viver.

Sentindo-se ameaçados pela presença da Brazil Railway , os pequenos e médio proprietários do Sul decidiram se aliar ai beato contra os grandes proprietários e a companhia norte-americana. Teve início então uma guerra que durou quatro anos (1912 – 1916).

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O Desenrolar do conflito foi dramático: a cada povoado que as tropas do governo destruíam, outro se formava, sob o comando de um novo líder espiritual.Foram necessários mais seis mil soldados e muitas armas pesadas para destruir definitivamente o Contestado.

Referências

Os movimentos”messiânicos” brasileiros: uma leitura – Alba Zaluar Guimarães

O Messianismo e a Construção do Paraíso na História – Luiz Alexandre Solano Rossi

História, Volume único – Divalte Garcia Ferreira

Luana Bernardes
Prof. Luana Bernardes

Graduada em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela mesma Universidade.

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01. [UFC]

Na manhã do dia seis

Canudos foi destruída

Com bombardeios e incêndios

Não ficou nada com vida

Dizem que o Conselheiro

Tinha morrido primeiro

Na Belo Monte Querida

FRANÇA, A.Q. de; RINARÈ, R. do. Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos. Fortaleza; Tupynanquim, 2002, p. 32.

Em relação aos movimentos como o de Canudos, é correto afirmar que:

a) foram movimentos que se limitaram às regiões Norte e Nordeste do Brasil, marcadas pela presença dos latifúndios.

b) foram movimentos sem grande repercussão, visto que se situavam no campo e a maior parte dos trabalhadores do país encontrava-se nas cidades.

c) no campo o domínio dos coronéis era absoluto, e esses movimentos sociais tiveram que se disfarçar como um movimento de conteúdo religioso, para evitar a repressão.

d) foram movimentos nos quais se combinavam conteúdos religioso e social, pois questionavam o poder das autoridades civis e religiosas.

f) foram movimentos de conteúdo exclusivamente religioso, marcados pelo fanatismo, reprimidos por Pedro II e pelos republicanos que se esforçavam para construir um país civilizado.

 

02. [ENEM]

“A serraria construía ramais ferroviários que adentravam as grandes matas, onde grandes locomotivas com guindastes e correntes gigantescas de mais de 100 metros arrastavam, para as composições de trem, as toras que jaziam abatidas por equipes de trabalhadores que anteriormente passavam pelo local. Quando o guindaste arrastava as grandes toras em direção à composição de trem, os ervais nativos que existiam em meio às matas eram destruídos por este deslocamento.”
(MACHADO P. P. Lideranças do Contestado. Campinas: Unicamp. 2004 (adaptado).

No início do século XX, uma série de empreendimentos capitalistas chegou à região do meio-oeste de Santa Catarina – ferrovias, serrarias e projetos de colonização. Os impactos sociais gerados por esse processo estão na origem da chamada Guerra do Contestado. Entre tais impactos, encontrava-se:

a) a absorção dos trabalhadores rurais como trabalhadores da serraria, resultando em um processo de êxodo rural.
b) o desemprego gerado pela introdução das novas máquinas, que diminuíam a necessidade de mão-de-obra.
c) a desorganização da economia tradicional, que sustentava os posseiros e os trabalhadores rurais da região.
d) a diminuição do poder dos grandes coronéis da região, que passavam disputar o poder político com os novos agentes.
e) o crescimento dos conflitos entre os operários empregados nesses empreendimentos e os seus proprietários, ligados ao capital internacional.

 

 

01. [UFC]

Resposta: D

A luta pelas melhorias das condições de vida encontrava na religião uma forma de expressão e de organização. Nesses casos, eram guiados por algum líder religioso, que apontava as autoridades também como responsáveis pela situação de miséria a que parte da população estava submetida.

 

02. [ENEM] 

Resposta: C

A Guerra do Contestado ocorreu devido ao impacto social que estes novos empreendimentos trouxeram à região de Santa Catarina e Paraná. A questão não analisa as características dos sertanejos do meio-oeste catarinense, apenas algumas das causas que levou à guerra.

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